28.11.12

O Encontro


O Encontro

                Ela viu que eu estava sozinho e veio conversar comigo. Perguntou meu nome, se apresentou, e foi me contando como e porque havia chegado ali, com muita intimidade. Ela estava chegando de Goiânia, onde estava visitando a mãe. Eu não sabia se ficava empolgado, desconfiado ou com dó. Confesso que fiquei com um pouco de dó. Depois tive que sair, alguém me chamou para dizer algo e pedi licença. É claro que minha saída foi proposital, queria ver até onde ia o interesse daquela moça por mim.

                Depois acabamos nos encontrando novamente. Ou melhor, ela me encontrou de novo, assim que acabei minha conversa com a pessoa que havia me chamado. Ela perguntou se eu iria ao baile dos Anos 70. Eu disse que sim. Perguntou se eu tinha mesa e se tinha lugar na minha mesa, eu disse que não sabia, porque, na verdade, a mesa não era minha, mas que ia ver para ela.

                Fiquei olhando aquela menina, diante de mim, bonita, sem grandes exuberâncias. Esbelta, um sorriso de Mona Lisa, pele muito macia, devia ter passado dos 30, pensei. Confesso que avaliei se gostaria de ficar com ela no baile - até porque ela estava, de fato, se insinuando e essa possibilidade começou a se tornar bem presente.

                Ajudei-a a comprar o ingresso, providenciei-lhe um lugar na minha mesa. Ela ficou feliz, mas manteve o sorriso de Mona Lisa, por algum motivo. Perguntou-me como eu iria, se eu ia de carro. Imediatamente ofereci carona (faltou ela pedir explicitamente!). Bem, ela de imediato aceitou. E assim ficamos combinados: iríamos ao baile juntos.

                Tentei me despedir, mas vi que ela me acompanharia até a porta, então descemos as escadas conversando. Ela era solteira, morava sozinha numa Kit. Confesso que isso me atraiu logo de cara: mulheres independentes! Isso pode ser o paraíso para solteiros... pode não ser. Pode não ser se se tratar de alguém complicado, com manias... Bom, vejamos, assim como eu, talvez. Enfim, não me parecia o caso. A conversa dela era leve, descomplicada, não me inspirou cuidados especiais ou algo parecido.

                Eu também não quis prolongar muito a conversa. Estávamos na rua e isso podia deixá-la desconfortável. De modo que nos despedimos. Ela entrou no seu hat preto e eu no meu hat marrom e fomos para casa.

O Caminho do Baile

                Entre esse nosso primeiro encontro, na quinta e o sábado, dia do baile, pensei nela algumas vezes, mas não muitas. O pensamento não era tanto nela, mas no que ela estaria a fim de fazer: de ficar comigo, de só pegar carona, de transformar minha noite em algo chato ou de ir para minha casa. Ou seja, todo um leque de possibilidades.

                Algumas coisas para mim se confirmaram já no sábado, pela manhã, quando recebi um recado via mensagem de texto, em meu telefone. O recado dizia:

                - Você vai mesmo passar aqui hoje?

                Isso me trazia algumas conclusões. 1. Ela estava com medo de levar um bolo; 2. Ela estava pensando em mim. Isto não é pretensão: até onde sei, é muito raro uma mulher motorizada como ela estar preocupada com uma carona com alguém que mal conhece... Para um baile!; 3. Minha noite corria, de fato, um risco de ser um fiasco.

                Essa última conclusão pode parecer precipitada. Mas, pela minha experiência, mulheres que ficam inseguras quanto aos tratos feitos tendem a ser enfadonhas. Espero que me perdoem o preconceito.

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                Apanhei-a às 22:30h, na porta de sua casa. Ela me fez esperar alguns minutos, o que me fez retirar parte da impressão de que havia insegurança - e, ao mesmo tempo, me deu um pouco de ânimo, por isso mesmo. Tive uma boa surpresa quando a vi: ela estava de fato bonita, com uma roupa meio escura, bem apropriada. Seu perfume era um pouco estranho, mas combinava com o sorriso de Mona Lisa. Ela me transmitia certa tranquilidade, apesar de tudo.

                Logo que entramos no carro, descobri que tínhamos muita coisa em comum. Éramos ambos analistas de sistemas, tínhamos ambos mais de 40, vínhamos ambos de Minas, morávamos ambos em Brasília há mais de 20 anos. Ela mantinha encontros com as amigas de infância, por isso ia a Minas todos os anos.

                - Isso é sensacional, como no “Encontro Marcado” - eu disse.

                À medida que íamos conversando, eu ia cada vez mais me admirando daquela figura que ia pintando diante de mim. Acho que fiquei, mesmo, muito empolgado, pois havia uma senhora que parava o carro ao nosso lado no sinal de trânsito e ficava olhando. Isso se repetiu umas três vezes, com essa mesma senhora.

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                Eu sou um cara tímido. Com a maioria das pessoas, para evitar que o assunto acabe, eu faço um esforço tremendo para arranjar perguntas não muito desinteressantes - ou seja, para evitar os típicos "onde você trabalha?", etc. Porém, não faltou assunto até entrarmos no clube. É verdade que falamos sobre banalidades, mas, convenhamos, banalidades bem faladas são ótimas para o caminho do baile!

                Mas ela também me contou que havia sido casada e que o casamento havia sido legal nos primeiros anos. Compartilhamos algumas coisas, apesar de que meu casamento durou menos e não foi tão legal durante tantos anos. Ela me contou que não tinha filhos e eu lhe disse que eu ainda queria ter filhos. Aliás, quando falei isso achei de mau gosto, da minha parte. Afinal, se ela não tinha filhos e tinha quarenta e poucos anos, não foi muito oportuna minha colocação.

                Achei muito engraçado quando descemos do carro. Comentei que o lugar era escuro, ao que ela retrucou:

                - Fique tranquilo. Comigo você não tem com que se preocupar.

                - Que ótimo - respondi. - Eu acredito.

O Baile

                Entramos no salão e eu nos imaginei entrando na pista de dança. Nessa hora, tive a agradável sensação de que a noite estava salva. Não, não foi nada que tivesse visto no salão e que me tivesse feito pensar isso: foi o simples fato de que, desde a casa dela até aquele momento não tinha tido sequer um segundo de desânimo ou qualquer sinal de que algo sairia errado.

Encontramos nossos companheiros de mesa e, nessa hora, percebi que estava mais íntimo dela do que deles. Então não tive mais dúvida, ficaria com ela essa noite.

                Combinamos que iríamos olhar um pouco a pista de dança antes de nos aventurarmos. E assim fizemos: apreciamos os casais, comentamos, rimos e logo sentimos à vontade para dançar. O problema é que, nessa hora, estava tocando uma música que, definitivamente, não se enquadrava em nada do que supúnhamos estar aptos a dançar. Então ela me disse:

                - Você sabe dançar música lenta?

                - Bem, se for como eu dançava quando tinha dez anos de idade...

                - Então vamos.

                E aí, acabávamos de romper o protocolo. Só havia dois loucos a dançar "agarradinho" no salão: nós. A festa mal tinha começado. Estávamos namorando.

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                Mas eu ainda não tinha beijado a moça. E não sabia quando e como fazê-lo. Vejam como são essas coisas: a gente tem anos de estrada, a moça está ali, "super-a-fim" e, ainda assim, tem que ter o momento certo. Mas, para a minha felicidade, esse momento não demorou muito.

                Primeiro, a música mudou, e a gente começou a dançar num ritmo bem mais rápido. Eu rodava a moça e ela ria. Era muito bom. Eu achava que ela estava rindo de mim, mas depois ela me falou que era incrível, pois ela achava que não sabia dançar e eu estava fazendo-a dançar. Isso massageou meu ego.

                Mas eu ainda não a tinha beijado. Sentamos e depois voltamos à pista. Eu posso não saber o momento exato de beijar a moça, mas eu não tenho dúvidas quando isso vai acontecer. Pode não dar certo, mas quando vem a onda, não tem como não acontecer. E assim foi.

                Foi um beijo longo. Eu fechei os olhos e só fui pensar se aquilo agradou ou não quem estava vendo muito tempo depois. Muuuuuiiiiito tempo depois. Quando voltamos para a mesa, já éramos namorados. De verdade.

 Sandra

                Depois do baile, nenhum telefonema. Tentei falar com ela no domingo, sem sucesso. Consegui falar com ela na terça-feira. Perguntei-lhe por que havia sumido: ela, de início, falou sobre sono atrasado e problemas de operadora de telefone. Depois ela me disse que estava um pouco desapontada, porque eu lhe havia dito que gostaria de ter filhos e ela não poderia ter filhos. Confesso que fiquei muito tocado e disse que não fazia sentido ela ter ficado tão sensibilizada com isso. Enfim, disse-lhe que ela era uma pessoa muito especial e que não devia, mesmo, ficar pensando nisso. E que queria encontrá-la novamente.

                Depois disso ela sumiu. Seu telefone não atendia, não respondia minhas mensagens. Enfim, depois de uma longa e torturante semana, resolvi ir a sua casa sem avisar. Pedi à atendente, na portaria, que chamasse seu apartamento. Sem resposta. Perguntei-lhe se ela tinha alguma notícia da moça, mas, nada. Retornei a sua casa mais três vezes, dia após dia, em horários diferentes e nada. No terceiro dia, quem estava na portaria era o vigilante noturno. Perguntei-lhe se ele sabia algo sobre a moça do D-407.

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                Ela havia se apresentado a mim como Sandra. Seu nome era Bernadete. Bernadete Oliveira Mendonça. Bernadete havia vindo de Goiânia para Brasília por conta de um assalto a banco. Seu marido (na verdade ela nunca se separou) era o chefe de uma quadrilha e Sandra (Bernadete) estava em Brasília há pouco mais de um mês por conta do assalto. Seu marido - Afonso Boaventura Alonso - estava preso em Goiânia e Bernadete estava, desde então, tentando levantar fundos para pagar a fiança do marido.

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                Não sei se vou encontrar Sandra novamente, mas a sensação que tenho é que ela deixou uma cratera no meu coração.

 

 

19.11.12

Terrorismo

No Michaelis encontramos a seguinte definição para terrorismo: "sistema governamental que impõe, por meio de terror, os processos administrativos sem respeito aos direitos e às regalias dos cidadãos; ato de violência contra um indivíduo ou uma comunidade". Há também quem diga que terrorismo é o uso de ataques localizados a instalações de um governo ou da sua população de modo a incutir medo. Essa forma de ataque pode ser adotada por organizações políticas e também por governos no poder.
Quando Israel ataca um prédio de emissoras de TV em Gaza e mata civis com armas proibidas, está repetindo o que fez em 2006, no Líbano, quando atacou os portos, pontes e aeroportos e usinas de energia elétrica e se utilizou dessas mesmas armas proibidas. Empobrecer e calar o inimigo - ainda que covardemente - é muito mais eficiente do que lutar de igual para igual. Mais...http://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/mundo/2012/11/19/interna_mundo,334471/israel-admite-que-33-das-mortes-em-conflito-sao-de-civis.shtml