O Encontro
O Encontro
Ela viu que eu
estava sozinho e veio conversar comigo. Perguntou meu nome, se apresentou, e
foi me contando como e porque havia chegado ali, com muita intimidade. Ela estava
chegando de Goiânia, onde estava visitando a mãe. Eu não sabia se ficava
empolgado, desconfiado ou com dó. Confesso que fiquei com um pouco de dó.
Depois tive que sair, alguém me chamou para dizer algo e pedi licença. É claro
que minha saída foi proposital, queria ver até onde ia o interesse daquela moça
por mim.
Depois acabamos nos
encontrando novamente. Ou melhor, ela me encontrou de novo, assim que acabei
minha conversa com a pessoa que havia me chamado. Ela perguntou se eu iria ao
baile dos Anos 70. Eu disse que sim. Perguntou se eu tinha mesa e se tinha
lugar na minha mesa, eu disse que não sabia, porque, na verdade, a mesa não era
minha, mas que ia ver para ela.
Fiquei olhando
aquela menina, diante de mim, bonita, sem grandes exuberâncias. Esbelta, um
sorriso de Mona Lisa, pele muito macia, devia ter passado dos 30, pensei.
Confesso que avaliei se gostaria de ficar com ela no baile - até porque ela
estava, de fato, se insinuando e essa possibilidade começou a se tornar bem
presente.
Ajudei-a a comprar
o ingresso, providenciei-lhe um lugar na minha mesa. Ela ficou feliz, mas
manteve o sorriso de Mona Lisa, por algum motivo. Perguntou-me como eu iria, se
eu ia de carro. Imediatamente ofereci carona (faltou ela pedir
explicitamente!). Bem, ela de imediato aceitou. E assim ficamos combinados:
iríamos ao baile juntos.
Tentei me despedir,
mas vi que ela me acompanharia até a porta, então descemos as escadas
conversando. Ela era solteira, morava sozinha numa Kit. Confesso que isso me
atraiu logo de cara: mulheres independentes! Isso pode ser o paraíso para
solteiros... pode não ser. Pode não ser se se tratar de alguém complicado, com
manias... Bom, vejamos, assim como eu, talvez. Enfim, não me parecia o caso. A
conversa dela era leve, descomplicada, não me inspirou cuidados especiais ou
algo parecido.
Eu também não quis
prolongar muito a conversa. Estávamos na rua e isso podia deixá-la
desconfortável. De modo que nos despedimos. Ela entrou no seu hat preto e eu no meu hat marrom e fomos para casa.
O Caminho do Baile
Entre esse nosso
primeiro encontro, na quinta e o sábado, dia do baile, pensei nela algumas
vezes, mas não muitas. O pensamento não era tanto nela, mas no que ela estaria
a fim de fazer: de ficar comigo, de só pegar carona, de transformar minha noite
em algo chato ou de ir para minha casa. Ou seja, todo um leque de
possibilidades.
Algumas coisas para
mim se confirmaram já no sábado, pela manhã, quando recebi um recado via
mensagem de texto, em meu telefone. O recado dizia:
- Você vai mesmo
passar aqui hoje?
Isso me trazia
algumas conclusões. 1. Ela estava com medo de levar um bolo; 2. Ela estava pensando
em mim. Isto não é pretensão: até onde sei, é muito raro uma mulher motorizada
como ela estar preocupada com uma carona com alguém que mal conhece... Para um
baile!; 3. Minha noite corria, de fato, um risco de ser um fiasco.
Essa última
conclusão pode parecer precipitada. Mas, pela minha experiência, mulheres que
ficam inseguras quanto aos tratos feitos tendem a ser enfadonhas. Espero que me
perdoem o preconceito.
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Apanhei-a às 22:30h,
na porta de sua casa. Ela me fez esperar alguns minutos, o que me fez retirar
parte da impressão de que havia insegurança - e, ao mesmo tempo, me deu um
pouco de ânimo, por isso mesmo. Tive uma boa surpresa quando a vi: ela estava
de fato bonita, com uma roupa meio escura, bem apropriada. Seu perfume era um
pouco estranho, mas combinava com o sorriso de Mona Lisa. Ela me transmitia
certa tranquilidade, apesar de tudo.
Logo que entramos
no carro, descobri que tínhamos muita coisa em comum. Éramos ambos analistas de
sistemas, tínhamos ambos mais de 40, vínhamos ambos de Minas, morávamos ambos
em Brasília há mais de 20 anos. Ela mantinha encontros com as amigas de
infância, por isso ia a Minas todos os anos.
- Isso é
sensacional, como no “Encontro Marcado” - eu disse.
À medida que íamos
conversando, eu ia cada vez mais me admirando daquela figura que ia pintando
diante de mim. Acho que fiquei, mesmo, muito empolgado, pois havia uma senhora
que parava o carro ao nosso lado no sinal de trânsito e ficava olhando. Isso se
repetiu umas três vezes, com essa mesma senhora.
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Eu sou um cara
tímido. Com a maioria das pessoas, para evitar que o assunto acabe, eu faço um
esforço tremendo para arranjar perguntas não muito desinteressantes - ou seja,
para evitar os típicos "onde você trabalha?", etc. Porém, não faltou
assunto até entrarmos no clube. É verdade que falamos sobre banalidades, mas,
convenhamos, banalidades bem faladas são ótimas para o caminho do baile!
Mas ela também me
contou que havia sido casada e que o casamento havia sido legal nos primeiros
anos. Compartilhamos algumas coisas, apesar de que meu casamento durou menos e
não foi tão legal durante tantos anos. Ela me contou que não tinha filhos e eu
lhe disse que eu ainda queria ter filhos. Aliás, quando falei isso achei de mau
gosto, da minha parte. Afinal, se ela não tinha filhos e tinha quarenta e
poucos anos, não foi muito oportuna minha colocação.
Achei muito
engraçado quando descemos do carro. Comentei que o lugar era escuro, ao que ela
retrucou:
- Fique tranquilo.
Comigo você não tem com que se preocupar.
- Que ótimo -
respondi. - Eu acredito.
O Baile
Entramos no salão e
eu nos imaginei entrando na pista de dança. Nessa hora, tive a agradável
sensação de que a noite estava salva. Não, não foi nada que tivesse visto no
salão e que me tivesse feito pensar isso: foi o simples fato de que, desde a
casa dela até aquele momento não tinha tido sequer um segundo de desânimo ou
qualquer sinal de que algo sairia errado.
Encontramos nossos companheiros de mesa e, nessa hora, percebi que
estava mais íntimo dela do que deles. Então não tive mais dúvida, ficaria com
ela essa noite.
Combinamos que
iríamos olhar um pouco a pista de dança antes de nos aventurarmos. E assim
fizemos: apreciamos os casais, comentamos, rimos e logo sentimos à vontade para
dançar. O problema é que, nessa hora, estava tocando uma música que,
definitivamente, não se enquadrava em nada do que supúnhamos estar aptos a
dançar. Então ela me disse:
- Você sabe dançar
música lenta?
- Bem, se for como
eu dançava quando tinha dez anos de idade...
- Então vamos.
E aí, acabávamos de
romper o protocolo. Só havia dois loucos a dançar "agarradinho" no
salão: nós. A festa mal tinha começado. Estávamos namorando.
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Mas eu ainda não
tinha beijado a moça. E não sabia quando e como fazê-lo. Vejam como são essas
coisas: a gente tem anos de estrada, a moça está ali, "super-a-fim"
e, ainda assim, tem que ter o momento certo. Mas, para a minha felicidade, esse
momento não demorou muito.
Primeiro, a música
mudou, e a gente começou a dançar num ritmo bem mais rápido. Eu rodava a moça e
ela ria. Era muito bom. Eu achava que ela estava rindo de mim, mas depois ela
me falou que era incrível, pois ela achava que não sabia dançar e eu estava
fazendo-a dançar. Isso massageou meu ego.
Mas eu ainda não a tinha
beijado. Sentamos e depois voltamos à pista. Eu posso não saber o momento exato
de beijar a moça, mas eu não tenho dúvidas quando isso vai acontecer. Pode não
dar certo, mas quando vem a onda, não tem como não acontecer. E assim foi.
Foi um beijo longo.
Eu fechei os olhos e só fui pensar se aquilo agradou ou não quem estava vendo
muito tempo depois. Muuuuuiiiiito tempo depois. Quando voltamos para a mesa, já
éramos namorados. De verdade.
Sandra
Depois do baile,
nenhum telefonema. Tentei falar com ela no domingo, sem sucesso. Consegui falar
com ela na terça-feira. Perguntei-lhe por que havia sumido: ela, de início,
falou sobre sono atrasado e problemas de operadora de telefone. Depois ela me
disse que estava um pouco desapontada, porque eu lhe havia dito que gostaria de
ter filhos e ela não poderia ter filhos. Confesso que fiquei muito tocado e
disse que não fazia sentido ela ter ficado tão sensibilizada com isso. Enfim,
disse-lhe que ela era uma pessoa muito especial e que não devia, mesmo, ficar
pensando nisso. E que queria encontrá-la novamente.
Depois disso ela
sumiu. Seu telefone não atendia, não respondia minhas mensagens. Enfim, depois
de uma longa e torturante semana, resolvi ir a sua casa sem avisar. Pedi à
atendente, na portaria, que chamasse seu apartamento. Sem resposta. Perguntei-lhe
se ela tinha alguma notícia da moça, mas, nada. Retornei a sua casa mais três
vezes, dia após dia, em horários diferentes e nada. No terceiro dia, quem
estava na portaria era o vigilante noturno. Perguntei-lhe se ele sabia algo
sobre a moça do D-407.
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Ela havia se
apresentado a mim como Sandra. Seu nome era Bernadete. Bernadete Oliveira
Mendonça. Bernadete havia vindo de Goiânia para Brasília por conta de um
assalto a banco. Seu marido (na verdade ela nunca se separou) era o chefe de
uma quadrilha e Sandra (Bernadete) estava em Brasília há pouco mais de um mês
por conta do assalto. Seu marido - Afonso Boaventura Alonso - estava preso em
Goiânia e Bernadete estava, desde então, tentando levantar fundos para pagar a
fiança do marido.
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Não sei se vou
encontrar Sandra novamente, mas a sensação que tenho é que ela deixou uma
cratera no meu coração.


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