19.9.20

Redes Sociais e Celulares

 

Tecnologia

                Dizer que a tecnologia é culpada pela lavagem cerebral e pela ignorância que assolam as massas é o mesmo que dizer que a canabis sativa é a responsável pelo vício dos viciados em maconha. É inverter a relação de causalidade, tirando da forma como é usada o ônus pelas consequências de seu mau uso. Se eu pegar meu carro agora e esgoelá-lo a 200 por hora na estrada até que um acidente aconteça, a culpa certamente não será do fabricante.

                O que vemos acontecer com os usuários de celulares e redes sociais não é consequência da tecnologia que lhes é colocada ao dispor e sim uma imensa carência de valores primordiais nas mentes desses usuários que lhes faça desviar a atenção de seus aparelhos quando necessário. São escolhas: por que não parar de olhar para o telefone na hora que alguém está falando com você? Por que ligar o telefone (no Facebook, não no boleto) enquanto usa o caixa eletrônico?

                Gostava muito de contar uma piada em que um certo cidadão estava a passear pelo shopping quando via um amigo guru diante de um aquário. Ele perguntava ao amigo: “o que está fazendo?” O amigo respondia: “mente forte domina mente fraca. Veja:” Nessa hora o amigo fazia um movimento para cima e o peixe, do outro lado do aquário subia. Em seguida ele fazia um movimento para o lado e o peixe acompanhava. Minutos depois, o amigo guru, após dar uma volta, avistava seu discípulo, ainda à frente do aquário. Ele olhava fixamente para o peixe, abrindo e fechando a boca. Mente forte domina mente fraca.

                A dita inteligência artificial, para quem trabalha com ela, é uma forma de adaptabilidade. Uma evolução dos recursos computacionais que permite que um programa gere um novo programa, de forma que o programa original se torne mais eficaz e mais possante. Quem leu ou viu Eu Robô sabe do que estou falando. Entretanto, o Eu Robô, como boa obra de ficção, sugere que os tais robôs desenvolveriam algo como uma vontade própria, ou seja, a partir de determinado ponto, eles não mais seriam comandados pelos humanos. Acho a obra genial, tanto no livro quanto no filme. Entretanto, me parece que quem vislumbra estarmos caminhando para uma situação similar entende tão pouco de inteligência artificial quanto de inteligência humana. Como legítima obra feita pelo homem, um conjunto de computadores (mesmo que seja o conjunto de computadores do Google) caminha exatamente para onde ele foi programado e todo o algoritmo por ele gerado corrobora exatamente com o alvo inicial concebido – incluindo, naturalmente, as falhas e omissões. Aliás, estas falhas podem até vir a ser nossa salvação!

                Ao homem, ao contrário do que este concebe em suas obras, foi concebida a vontade própria. Muito diferente de uma simples capacidade de se auto recriar, o homem tem como hábito refazer sua própria programação, tendo alvos muitas vezes distintos daqueles a que inicialmente se propôs. Assim é que, ao tempo que é capaz de fazer obras fantásticas, também é capaz de negar seu próprio conhecimento e fazer proliferar teorias completamente sem fundamento, apenas para satisfazer a seus desejos.

 

Mentiras

                Acreditar que a terra é plana, depois de toda a evolução científica, com todas as equações e provas de laboratório, pode parecer algo terrível – e realmente o é. O budismo acredita que a ignorância seja o pior mal que pode se acometer a um ser humano, sendo que o esse tipo de ignorância – a ignorância ativa, em que o detentor não só desconhece a verdade como passa a acreditar e dissemina uma realidade por ele criada – é o pior possível, abominável.

                Possuir posicionamentos políticos contraditórios não é necessariamente algo indesejável. Defender causas opostas, nem tampouco. Já desqualificar seu adversário tomando como base notícias falsas, pode ser catastrófico. E aqui voltamos àquela questão dos valores primordiais: nesse caso, são valores cristãos. Não é atoa que luxúria e preguiça são considerados pecados: eles servem para a formação de opiniões de massa calcadas na ignorância ativa. Como eu dizia, abominável.

                O conteúdo publicado na internet, por algum motivo, raramente é questionado como deveria. Alguém que se filma contando uma baita lorota sobre qualquer coisa no Youtube é imediatamente tido como digno de atenção, sabe Deus por quê. E o interessante é que os vídeos, posts ou seja lá o que for mais divulgados raramente são os menos mentirosos, mas sim os que mais agradam, ainda que nada tenham de humorísticos ou que, se forem piadas, ainda assim venham a caluniar e difamar.

                Pior que isso, só quando isso é fomentado e sustentado por instituições legais, redes de comunicação e redes sociais. Quando é uma combinação disso tudo...

Algoritmos

                Antes de existir Facebook existia Rede Globo. E muito antes de a Rede Globo apoiar um movimento jurídico que derrubou um presidente, ou quando, há mais tempo, apoiou a eleição de outro presidente, eu já dizia que não se podia culpar um meio de comunicação pela ocorrência um fenômeno de crença sócio-política. Ou seja, sempre ficou patente que o “algoritmo” da Rede Globo foi criado para atender a uma série de vontades dos expectadores. Da mesma forma, o algoritmo do Facebook serve para atender às vontades dos membros: as amizades sugestionadas serão as mais prováveis de serem aceitas, assim como as propagandas e outras formas de ofertas do site.

                Certo. Não, não se trata de ingenuidade. Este é o protocolo padrão. Ele é real e incontestável. Mas não é natural. Por exemplo, é claro que queremos que os primeiros resultados de uma pesquisa do Google sejam relacionados aos assuntos que nos interessam, mas isso não quer dizer que aprovemos que, entre esses primeiros resultados, sejam inseridos links para sites cujo conteúdo não seja propriamente relevante, mas que tenha sido lá colocado oportunisticamente como forma de reciprocidade entre o Google e um cliente seu.

                A coisa pode ir mais longe: já está acontecendo de recebermos telefonemas de ofertas de produtos em que o vendedor tem a ousadia de dizer que está oferecendo o tal produto em função de nossas preferências de sites visitados e outros hábitos da internet. Deve ter gente que aceita. Talvez nem todos os indivíduos sejam como eu – eu, ao ouvir isso, naturalmente me despeço e agradeço. Conforme meu humor, processo o ofertante por invasão de privacidade.

Voyerismo

                Eu sou meio paranoico com envio de informações pela rede. Só que às vezes ajo de forma invertida. Por exemplo, nas minhas configurações de conta do Google, habilito todas as opções de registro: registro de histórico, registro de lugares, e por aí vai. Minha teoria é a de que se eu desabilitar, as informações serão salvas da mesma forma, mas serão ocultadas de mim mesmo, então prefiro ver.

                E também sou meio avesso a ficar postando selfies, assim como o que faço e como faço. Mas, certo ou errado, meu perfil não é o padrão mais encontrado. O comum, ao que me parece, é postar sempre e ficar esperando ansiosamente curtidas e comentários. A meu ver, isso pode ter relação com o hábito de bisbilhotar a vida alheia – veja-se o grande ibope que os BBB e demais reality shows tem.

                Problema maior pode ser endeusar o que o outro pensa a seu respeito, principalmente quando esse pensamento tem o potencial de se multiplicar aos milhões. A esse respeito, vários filmes foram feitos, mas, de maneira geral, o que de pior pode acontecer depois de se expor uma pobre alma à Rede é a morte. Suicídio.

                Mas, calma, não sou tão careta assim. Afinal, as redes têm sua razão de ser e talvez a mais importante seja a comunicação entre membros. Dentro dessa perspectiva, faz todo sentido enviar fotos, áudios e links. Aliás, links, a meu ver, em alguns casos deveriam ser obrigatórios: copiar e colar, além de crime tira a chance de estudar e validar a origem do que se posta!

O reinado informático

                Uma vez um falecido amigo meu me chamou a atenção de como a nova geração de crianças e pré-adolescentes se comporta diante de um computador. São verdadeiros reizinhos em seus universos computacionais, monarcas poderosos com seus exércitos de Pokemons em suas terras virtuais, contra seus inimigos, cuja vitória é sempre temporária, garantindo o retorno do rei ao poder.

                Tire dessa criança o computador ou o celular e verá o que é um ser revoltado. E para quem acha que é o mesmo que tirar uma bicicleta de uma criança do passado, eu digo: não! Definitivamente não, não é. Por mais que nosso ciclista fosse poderoso com sua bicicleta, ele não se tornaria absolutamente inoperante sem ela.

                Isso é algo realmente podre. Ainda que um ser humano não deixe de ser um ser humano por se subjugar a um celular, ele definitivamente se torna menos interessante. Muito menos interessante.

As redes que somem

                Quando o Twitter surgiu já havia Orkut e Facebook. O Orkut e o Facebook tinham mais recurso, era mais “navegável”, digamos, mas, mesmo assim, o Twitter emplacou. O que se dizia na época é que emplacou por ser minimalista e imediato, com grande abrangência. Há controvérsias. Bom, está aí até hoje. Sofreu melhoras, mas as controvérsias persistem.

                Com o crescimento do Facebook, o Orkut foi minguando até sumir. Mas no Brasil ele cresceu mais e persistiu por um bom tempo. Nunca ouvi explicação plausível.

                Mais recentemente, outra rede, o Instagram, vem crescendo vertiginosamente e ocupando uma liderança que antes era do Facebook. Isso é realmente muito interessante, porque o Instagram não oferece 1/10 dos recursos que o Fecebook oferece e, além disso, o Facebook comprou o Instagram, portanto se havia uma razão institucional esta não existe mais. Além disso, o Instagram não permite publicar links o que, a meu ver, além de comprometer a legitimidade e os direitos autorais dos posts, inibe a verificação de veracidade, o que considero terrível.

                O Facebook, além disso, não obstante as acusações de ser tendencioso e censurar somente o que não lhe interessa, permite ao usuário filtrar o conteúdo de forma muito mais eficiente que o Instagram, além de trabalhar com conteúdo rico (texto formatado, imagem, multimídia, hiperlink, etc.). Porque uma rede tão ruim como o Instagram faz sucesso?

                Esses fenômenos da Internet para mim ainda são mistérios e talvez tão nocivos quantos as próprias Fake News. Esse comportamento tendencioso facilita o surgimento e a penetração de grupos de interesses espúrios.

                As redes de comunicação, por outro lado, também carregam feitiçarias inexplicáveis: por que uma rede fechada, como o WhatsApp, cujo acesso direto a partir de um servidor Web não existe e depende de um telefone para funcionar, persiste com a maior parte dos usuários, ao passo que uma rede aberta, como o Telegram, que oferece serviços Web legítimos, independentes de dispositivos móveis, ainda não é tão usada? Ainda que a comunicação multimídia em tempo real seja mais eficaz no WhatsApp, se o Telegram fosse adotado seria questão de dias para a melhor tecnologia se incorporar.

                Pra completar a maluquice, vem os terríveis grupos de WhatsApp. Por que não transformá-los em uma rede social e assim deixar o aplicativo só para comunicação direta? Podem me chamar de ranzinza, mas grupo de WhatsApp para mim é o que eu chamo “panelilha”. Desde que me entendo por gente isso pra mim não pode ser coisa boa.

A sobrepujança da história

                Finalmente, aqui estamos nós, depois de mais de uma década e meia de smartphones e redes sociais.

                Eis que a história é vencida. Eis que, depois de passar por regimes escravocratas, ditaduras, torturas e um sofrido processo de redemocratização, aqui estamos nós, diante de uma campanha retrógrada, ufanista.

                Eis que o Grande Irmão vence, as companhias ligam dizendo o que devemos comer e beber, nosso dito líder diz que remédios devemos tomar, o que é doença e o que não é, determina quais as bocas devem ser caladas, o que acontece e o que não acontece. A história está sendo reescrita, não por quem entende e conhece, mas por quem pode e manda.

                E eis que democracia não é mais desejada, igualdade vai sendo substituída por uma certa “meritocracia” e os valores que contam, sob a égide de um dito liberalismo, são aqueles que garantem a sobrevivência do status quo, ainda que enseje o retorno de um sistema falido.

                Eis que o estado perde a função de proteger o cidadão, o mais fraco, o explorado e passa a assumir a função de, ao contrário, garantir que esse cidadão interfira nos interesses de quem manda.

                Precisamos mesmo desse estado? A impressão que dá é que, de fato, o que ele conquista é sua própria ruina, em prol de outro ou de outros mais poderosos. Por outro lado, precisamos, sim, de um estado que regulamente a atuação social das empresas, cidadãos e instituições, impedindo o chamado abuso de poder. Quando o teremos de volta?

2.7.17

Pesquisas Eleitorais

 A declaração de voto em Lula é uma resposta a movimentos de direita, não é ignorância. Está cada vez mais claro que Lula não é o mais corrupto e que sua desqualificação é forjada. Lula representou e representa um rompimento de paradigma na história do Brasil, queiram ou não, e não haverá retorno. Temos que andar para frente, se não querem o Lula, que fabriquem outro melhor. FHC de novo, jamais. Fora Temer. Fora a direita, para sempre, neste país.

19.5.17

Chega de Facismo

Mas será que o ipeachment de Dilma não serviu de lição? Ainda havemos de conviver com mais arbitrariedades? Mais uma eleição ilegítima para legitimar a destruição dos direitos trabalhistas? E onde uma emenda constitucional para eleições diretas diante do quadro atual vai contra a lei? E onde o PT é pior do que o PSDB ou do que qualquer partido? Aécio Neves é do PT? Será que vocês não aprendem nunca? Será que nunca vão dar o braço a torcer que não adianta forçar a barra, o Brasil não tem mais vocação para ser capacho da Rede Globo, da Veja e do Donald Trump? Vocês têm medo de uma eleição direta por que, o que garante que uma eleição indireta trará alguém melhor do que o Lula? Onde que ele foi pior do que qualquer outro político deste país? Está na hora de vocês reconhecerem que forçaram a barra, não foi p PT que inventou o mensalão e o petr-olão. E não venham com essa conversa de que o PT roubou mais, o PT só roubou mais na Rede Globo. Se não querem mais PT, façam por onde apresentar alternativas. O povo não é burro, e ainda que fosse, não é obrigado a ceder espaço a minorias e castas, tão ou mais corruptas do que seus legítimos representantes. Essa postura não é nada melhor do que um Jair Bolsonaro ou um Donald Trump. O Brasil não é de vocês. O Brasil é de todos. Aprendam isso. Isso é DEMOCRACIA!

26.9.16

Afastados, Mas Por Quanto Tempo?

Quem teve a oportunidade de acompanhar a trajetória da esquerda brasileira nas décadas de 80, 90 e no início do século atual, pôde observar que, junto a sua ascensão também cresceu o fisiologismo, a parte dele que especificamente proporcionava essa dita ascensão. Dissidências dentro do PT aconteciam muito antes da criação do PSOL e Lula já era visto com restrições muito antes de ser presidente.

A verdade é que Lula não teria sido eleito se não tivesse feito as alianças que fez - sendo que uma delas, como ela própria hoje admite, culminou com a destituição do governo do PT.

Mas muito se engana quem hoje acredita que a esquerda se manteve no poder por quase 14 anos somente por causa de um "projeto de poder" e por conta da manutenção de um eleitorado pobre que via - e vê - na esquerda sua grande esperança de sobrevida e sua própria ascensão. A esquerda chegou ao poder - e lá se manteve durante esses anos - como reflexo de uma tendência brasileira e de grande parte dos países que hoje tentam galgar espaço na economia mundial. Ela não vem ao poder como uma solução brilhante - e, nesse ponto, quem critica Cuba e o comunismo querendo desqualificá-la não produz mais que um calhamaço de conclusões óbvias e irrelevantes no contexto que descrevo. De fato, as soluções socialistas estão longe de serem projetos socioeconômicos de fato bem articulados e eficazes e, principalmente, livres de corrupção. Entretanto, elas são as únicas alternativas para toda uma parte do mundo que tende, cada vez mais, a servir apenas como meio de sustentação a outra parte deste mundo, esta última sim, com projetos bem articulados. Bem articulados, mas sustentados exatamente pela derrocada de grande parte da humanidade, parte essa que corresponde, por sua vez, à sustentação da base eleitoral das esquerdas na América Latina, por exemplo.

Claro, nada do que estou falando é novidade e também não é o foco da presente abordagem. O objeto para que quero chamar a atenção é que a ascensão da esquerda na América Latina é uma tendência e não uma fase ou uma "onda" como muitos gostariam que fosse. Iludem-se aqueles que pensam que é possível permanecer nos antigos moldes de sustentação econômica dos padrões da centro-direita brasileira, ouça-se, PSDB e seus aliados. O PT, como já discuti em outros artigos, jamais sequer chegou perto de ser o partido que mais roubou neste país. Ao contrário, ele apenas seguiu o molde de corrupção antes praticado por outros partidos, mais especificamente o PSDB, de quem herdou o Mensalão e o Petrolão. É óbvio que os meios atuais de comunicação, fruto da herança dos governos de centro-direita, dissemina uma ideia diversa, mas aqui estou considerando esse fato como conhecido. Entretanto não nego que o volume de desvio de recursos públicos para formação da base de sustentação dos governos do PT, não fugindo à regra dos governos anteriores, foi assustador - apenas com a diferença de ter sido reduzido, entre outras coisas, pela atuação das instituições que, neste caso, estiveram sujeitas a uma menor intervenção por parte do Governo.

Mas o que salta aos olhos no momento atual é que a crise política tende a se agravar depois da investida da direita contra o governo do PT - especialmente depois da saída deste último do poder. Como estava dizendo, a ascensão da esquerda é uma tendência, fruto da insustentabilidade do esquema de subjugação das classes menos favorecidas. A esquerda - felizmente ou infelizmente, não estou julgando esse mérito - é, neste momento, o único meio de consumar definitivamente o rompimento do processo de exclusão das classes menos favorecidas do processo econômico. E o processo econômico, por sua vez, não pode mais prescindir da participação dessas classes.

Portanto, prezados leitores, não vai ser prendendo Lula, Palocci, Mantega, Dilma ou quem quer que seja que se vai reverter essa tendência. Como dizia Raul Seixas: “cê mata uma e vem outra em meu lugar”. Especialmente: não vai ser Michel Temer que vai afastar a esquerda do poder no Brasil. Até porque parece que tem gente “do outro lado” que também não está gostando...
Mais... http://www.conversaafiada.com.br/pig/essa-porra-desse-governo

28.11.15

O Santo do Petrolão

É com a cara deslavada que o ministro Gilmar Mendes faz sua própria campanha, calcado nos privilégios de sua profissão e sua posição. Na verdade, trata-se da mesma história já conhecida dos ministros Sérgio Moro e Joaquim Barbosa. Ética passa longe ali.
Combater a corrupção é uma coisa. Fazer-se em cima do óbvio é covardia, é pisar em quem já está na lama. Quer dar uma de santo, vai procurar o papa!
Não adianta continuarmos com bodes expiatórios, tem-se que curar o mal pela raiz: porque não se investiga a origem desse Petrolão? Ou vão me dizer que foi o PT que o criou?
Coitada da presidente Dilma: se tem alguém que faz menos besteiras na atual conjuntura é ela. O que? Suas mazelas poéticas? Tem dó, não é isso que está derrubando a Bolsa de Valores.
Por que o Congresso ainda não votou os pacotes fiscais? Agora todos nós vamos pagar por isso!
Enquanto a Globo e o Gilmar Mendes fazem seu teatro, o mundo assiste, horrorizado, um país dando um tiro no próprio pé; isso em um momento
histórico, em que poderíamos estar dando a volta por cima e finalmente enxugando a corrupção secular de que somos vítimas.
Se em vez de ficar pixando a Dilma estivéssemos votando as leis que precisamos pra sair da lama, talvez essa crise já tivesse sinalizado seu final. Nós todos somos culpados e não é por termos votado em Dilma, em Eduardo Cunha, Fernando Henrique ou Fernando Color e sim por estarmos agindo de forma retrógrada! Vamos parar de uma vez com a inconsequência!
Agora, a partir de segunda feira, estaremos todos pagando por essa inconsequência!
Mais... http://www.valor.com.br/politica/4333316/gilmar-mendes-diz-que-agora-sabe-o-que-lula-e-dilma-fazem-nas-eleicoes

13.3.15

PT, Petrolão e o Pesadelo da Classe Média-alta


   Reeleita Dilma Rousseff para a Presidência da República, vem-nos a pergunta: será que 50% da população brasileira é conivente com a corrupção? De antemão respondo a essa pergunta com um não. E não se trata de os eleitores de Dilma não reconhecerem a roubalheira do Petrolão, assim como do Mensalão nem serem condescendentes com isso. Não é fácil para o eleitor colocar na balança dois tipos de corrupção e terem que decidir entre um deles mas, nesse caso, teve que ser assim: ou convivia-se com o envolvimento de políticos em um sistema corrupto ou trazia-se de volta políticos ainda mais corruptos que, no passado, fomentaram esquemas de desvios ainda piores e, pior, tiraram de parte da população as chances de sair de sua condição de miséria.

   Entretanto, a coisa não é simples assim: passadas as eleições, resta acalmar os ânimos da parte "perdedora" do eleitorado. Acontece que os eleitores da oposição ficaram amedrontados com a reeleição de Dilma Rousseff. Não é completamente óbvia a origem desse medo: é necessário um certo teor de investigação para melhor compreendê-lo. O fato é que, do medo gerou-se o ódio, num processo que, aliás, vem tomando corpo desde a primeira eleição de Lula, em 2002. O processo pelo qual o medo transforma-se em ódio é muito bem ilustrado com cenas das eleições de 2014, parodiadas com a fala de Slavoj Žižek ( https://www.youtube.com/watch?v=3Nc7wAQ05QY ).

   Faz-se muita referência hoje às manifestações ocorridas em 2013. Na minha humilde opinião, apesar de reconhecer que essas manifestações serviram para mostrar como a Internet pode ser usada para constituir e fortalecer movimentos de massa, acredito que esse movimento politicamente foi muito fraco. Isso porque ele era formado por vários grupos, cada um reivindicando um objeto diferente e sem nenhuma liderança política envolvida. Entretanto, uma coisa é fato: eles serviram para revelar alguns submovimentos paralelos que andam rondando vulnerabilidades em nossa sociedade. Um deles certamente foi o dos Black Blocs ( http://educacao.uol.com.br/noticias/2013/10/07/black-blocs-tomam-e-vandalizam-pelo-menos-cinco-onibus-no-rio.htm ). Outro, que veio a manifestar-se mais à frente, após as eleições de 2014, foi o dos "órfãos da revolução". Essa aglomeração vem, em última instância, a fomentar o movimento pelo impeachment de Dilma Rousseff. A característica preponderante desse movimento é sua tendência reacionária, como fica claro nessa reportagem de novembro de 2014 https://br.noticias.yahoo.com/blogs/laura-capriglione/quem-sao-os-bandidos-que-batem-em-jornalistas-enquanto-222941249.html .

Corrupção

   Em meu blog anterior, http://rodgf.blogspot.com.br/2014/10/por-que-eu-nao-voto-no-psdb.html , tentei abordar o quanto a disseminação do conhecido Mensalão feita pela imprensa é parcial e tendenciosa. Agora temos, diante de nós, o já conhecido Petrolão, onde são referenciados os cartéis criados entre os dirigentes da Petrobrás e os das empreeiteiras fornecedoras da Petrobrás. As semelhanças entre os dois esquemas é profunda:
   - São frutos de um sistema político em que os cargos do primeiro, segundo e terceiro escalões do Governo é assumido pela base aliada desse Governo em troca de favores políticos;
  - Têm seu mecanismo definido há décadas, provavelmente com origem nos governos militares ou nos imediatamente subsequentes;
  - São sustentados pelos partidos políticos, tanto de governo como de oposição, com o foco nas campanhas eleitorais e no orçamento público;
  - Além dos partidos políticos, têm sua origem de sustentação em grandes grupos investidores - os mesmos grupos que, ao serem descobertos os esquemas, trabalham publicamente para sua destruição.
  A esse respeito, inclusive, há uma grande controvérsia: supondo que os grupos de investidores que publicamente se posicionam contra os cartéis tinham, como um todo, nesses cartéis uma de suas mais importantes fontes de renda, qual seria, para eles, a consequência da destruição desses mesmos cartéis? Controvérsias à parte, somente uma troca de poder daria a esses grupos a chance de retomarem a fonte de renda perdida.
 
   A corrupção não é admissível, a meu ver, em nenhum contexto. Cabe a nós, entretanto, avaliarmos o que se diz da corrupção e por que motivo. Na véspera do 2º turno da eleição de 2014, todos devem se lembrar, a revista Veja publicou uma reportagem de capa onde um delator do Petrolão dizia que a então candidata Dilma teria conhecimento do esquema dos cartéis. Não obstante a possível veracidade da afirmação, a publicação de um artigo dessa natureza, sem provas ou sequer indícios concretos do real envolvimento da candidata com o esquema demonstra a tendenciosidade e a não confiabilidade de certos meios de comunicação. Mais recentemente, o blog de Luiz Nassif, ex-folha e atual comentarista da Band, indicou uma manipulação vergonhosa de noticiário da Globo ( http://www.tribunahoje.com/noticia/131721/politica/2015/02/11/globo-blinda-fhc-no-noticiario-da-lava-jato.html ). Esse é apenas um exemplo de como a imprensa vem manipulando a opinião pública no Brasil. E ainda em fevereiro de 2015 outra tentativa de manipulação dos fatos pela revista Veja ( http://vejabrasil.abril.com.br/brasilia/materia/nota-de-esclarecimento-ao-leitor-4344 ).
Outro aspecto sórdido do combate à corrupção é a utilização das instituições públicas para autopromoção política. O julgamento dos envolvidos no Mensalão foi um ato inédito, onde foram punidos ex-ocupantes de alto escalão, julgados, condenados e presos, como nunca antes havia sido feito neste país. Entretanto, atitudes abitrárias foram tomadas para adquirir o apoio da população e o crescimento político pessoal ( http://www.cartamaior.com.br/?/Editoria/Politica/Joaquim-Barbosa-e-Antonio-Fernando-de-Souza-esconderam-provas-que-poderiam-mudar-julgamento-do-'mensalao'%0d%0a/4/28145 ). Prisões foram feitas de forma teatral para chamar a atenção da mídia ( http://www.tribunahoje.com/noticia/131547/politica/2015/02/10/no-brasil-exceco-virou-regra-prende-se-para-depois-apurar.html ).

   Resumindo, tanto o Mensalão quanto o Petrolão devem ser combatidos, mas combatamos o mal pela raiz e lutemos contra nossos verdadeiros inimigos.

A Economia de Dilma

   Parece haver quase uma unanimidade quanto ao Governo ser o causador da crise econômica por que estamos passando. Entretanto, fato curioso: tente pesquisar pela Internet as falhas nas decisões econômicas do Governo nos últimos anos. Você vai encontrar:
 - Falta de investimentos: teria sido uma das causas do parco crescimento econômico do último ano. Entretanto o período que precedeu este último ano é farto em obras do governo e incentivos fiscais;
 - Excesso de gastos públicos: seria o contrário da questão anterior, ou seja, nesse caso o Governo teria errado por ter investido mais do que deveria ou por ter gasto mal o dinheiro público. De fato, consta que a metade das obras do PAC não foram inauguradas no tempo previsto. Mas os gastos do governo não aumentaram significativamente em relação aos anos anteriores e de forma alguma em proporção que justificasse, por si um período de recessão;
 - PAC e Copa do Mundo: de novo, os gastos públicos. De novo, não há mudanças significativas em relação aos anos anteriores ( http://auditar.org.br/web/?h_pg=noticias&bin=read&id=2007 );
 - Incentivos Fiscais: critica-se o Governo por ter feito incentivos fiscais. Também critica-se o Governo pelo contrário. A esse respeito, vou abrir um parêntese: não é a primeira vez que o Brasil usa esse artifício para sair de uma crise. Em 1930, para evitar a queda do preço do café e o consequente desemprego, o brasil comprou e queimou boa parte do estoque produzido de café, como se sabe. Aliás, isso é Keynes - veja-se "enterrar garrafas". Essa medida teria alcançado sucesso, não fossem as eleições de 2014. Para pressionar a saída do governo, pelos motivos que discuto a seguir, parte dos investidores brasileiros decidiu reduzir suas aplicações. Isso é facilmente verificável acompanhando-se as oscilações da Bolsa de Valores. O próprio Petrolão foi usado como justificativa para a redução na compra de títulos da Bolsa, redução esta em parte justificável pela perspectiva de queda das ações da Petrobrás, em parte sem maiores justificativas;
 - Juros altos e inflação: coloquei esses dois itens juntos de propósito, pois os juros altos são usados para combater a inflação. Essa ortodoxia e é herança do governo Itamar. Plano Real, certo? Aliás, em economia, existe uma famosa curva da qual não há como fugir: a hipérbole inflação-recessão. Usada por Fernando Henrique Cardoso, inclusive.

   Entre as medidas a serem tomadas para compensar erros enquadrados nos itens acima, está o contingenciamento fiscal. Essa medida está sendo tomada desde o início do presente mandato e já conseguiu fazer com que as contas do Governo se revertessem e apresentassem resultado positivo no mês de janeiro. Entretanto, não estão tendo o apoio da população, que não aceita os aumentos nas contas de energia, nos preços dos combustíveis, no imposto de renda e outros.

Impeachment

   Mas algo incomoda a classe média-alta, profundamente. Se a recessão é causada, entre outras coisas, pela própria redução no investimento, em boa parte proveniente da referida classe média-alta, por que essa mesma classe média-alta não refaz seus ditames e favorece ao Governo, novamente, os meios de governabilidade como favoreceu, por exemplo, a Lula, após o Mensalão, para que ele reerguesse a economia?

   A classe média-alta não acreditava que o PT fosse ficar no poder por mais 10 anos. Eles acreditavam que, depois do Mensalão, os esquemas de sustentação da base aliada do Governo iriam se enfraquecer e, portanto, o PT e sua base fossem minar e dar lugar, novamente, a um partido que atendesse mais direta e eficientemente a seus interesses: no caso, o PSDB. Quando ficou patente que isso não iria acontecer, primeiro nas eleições de 2006, depois nas de 2010 e finalmente nas de 2014, passou a justificar-se o que seria um tiro no próprio pé: melhor minar artificialmente a presente estrutura de Governo que correr o risco de ser excluído dessa mesma estrutura. Isso fica muito patente, hoje, quando se vêem os atritos entre o PMDB e o Executivo: é notório o desencontro causado pelo rompimento (de parte) dos cartéis.

   Além disso, a ruptura dos cartéis tende a se perpetuar com operações como a Lava-jato e outras que podem vir. Empresas estão quebrando. A máquina estatal não apresenta mais tanto interesse para a classe média-alta. Mas o PT não apoiará privatizações. E as eleições já passaram. Que lhes resta fazer? - Impeachment.

   Não há, de fato, como os próprios líderes do PSDB admitem, elementos necessários ao impeachment. Entretanto, o custo de reverter o sentimento de rancor plantado em parte da população a essa altura se tornou muito alto. Não se sabe o que mais deverá ser feito para restabelecer um sentimento de relativa tranquilidade, principalmente na classe média-alta - e aqui não estou mais falando em investidores. Os movimentos contrários tendem a aumentar. Agora é zelarmos pela democracia e não deixarmos o país cair novamente na mão de certo tipo de oportunistas.

20.10.14

Por que Eu Não Voto no PSDB

                Logo após a votação do primeiro turno das eleições deste ano, um amigo meu, com quem costumo conversar sobre política, enviou-me um e-mail em que dizia:
 
“Prezado Rodrigo,

Acredito que todos nós queremos o melhor para o Brasil. Venha da Direita ou da Esquerda. Porém, com o PT é diferente. Por favor, leia o livro "O Chefe" de Ivo Patarra e depois comente comigo.”
 
Não foi agradável ler tudo aquilo de novo. Sim, de novo, porque o livro, como vocês bem podem verificar, não passa de uma compilação de tudo o que foi publicado na imprensa durante a chamada "CPI dos Correios". Mas eu havia lhe prometido, então, cumpri.

                Em outras oportunidades já declarei, mas vou repetir mais uma vez, para que quem me ouça ou me leia possa se lembrar, a cada palavra que eu disser: nunca fui militante do PT, nunca fui sequer simpatizante do PT. Ao contrário, remando contra a maré, quando estudante universitário, já naquela época, sempre fui contra os movimentos estudantis influenciados pela CUT - cria do PT. Da mesma forma raramente apoiei, quando bancário, os movimentos grevistas liderados pelo Sindicato dos Bancários. Motivos:
                - Comportamento influenciado pelos movimentos comunistas estrangeiros, mal adequados à nossa realidade;
                - Atividades voltadas para interesses pessoais, de ascensão política, dos condutores;
                - Atitudes grosseiras ("toscas") dos articuladores, que mal sabiam falar, sempre agressivos, intimidadores, meio ignorantes, mesmo;
                - Dúvidas que eu tinha sobre a honestidade desses articuladores - será que usavam a verba do DCE para consumo próprio? Será que viajavam a lazer com esse dinheiro, etc.;
                - Discurso "bolchevique", estilo "Companheiros!", etc.

                Alguma semelhança com algo (ou alguém) que conhecemos? Certo. Nesse caso, por que eu estaria aqui, agora, polemizando com meu posicionamento político? Relembremos os fatos que marcaram minhas posições.

                Desde que eu – acredito que também quem me lê – me entendo por gente, ouço falar de um país - o nosso país - castigado por:
                - Uma cultura individualista, herdada da época da colonização, em que a população foi formada por aventureiros, escravos, aristocratas e criminosos, tão diferentes entre si  mas com uma coisa em comum: de maneira geral, todos lutavam apenas por seus interesses pessoais, sempre com foco si mesmos, como indivíduos. Talvez os escravos tivessem um sentimento comunitário, mas estando em minoria e prejudicados, na melhor das hipóteses agiam em prol de seu próprio substrato social;
                - Uma péssima - por que não dizer criminosa - distribuição de renda e, decorrente dela:
                - Uma condição de pobreza extrema e fome na maior parte da população e, finalmente,
                - Uma condição de país explorado e subjugado pelo resto do mundo.

                Saindo das condições mais antigas e primárias e nos aproximando do presente, vimos o país passar por várias fases políticas, sendo as mais recentes:
                - Uma democracia frágil que ao final se sujeitou a um golpe militar;
                - Uma ditadura militar que, sob a capa de um "milagre econômico" plantou a raiz de um aumento exponencial na pobreza e na má distribuição de renda, ao tempo em que calava a boca de seus oponentes, se preciso matando e torturando;
                - Uma nova fase de democracia frágil que veio caminhando de um governo de semicorreligionários da ditadura militar para um governo de centro-esquerda, passando pelo neoliberalismo enlouquecido e pela inflação galopante, acompanhada da desigualdade plantada, entre outras coisas, pelo tal "milagre econômico".

                Mas passado esse processo, já na década de 90, dois fatos saltavam aos olhos:
                1. O Brasil conseguiu atingir uma estabilidade monetária, calcada em fórmulas ortodoxas, mas, diferentemente de tentativas anteriores, mais bem adaptadas à realidade nacional e mais bem sucedidas, entretanto:
                2. O Brasil estava sendo governado por membros de uma minoria e apenas em função dela, para ela.

                Essa minoria não era de um grupo de milionários - apesar de haver muitos deles dentro dela - mas sim de um grupo maior, de empresários e trabalhadores de classes alta e média-alta. Até aí sem maiores problemas, certo? Estávamos estáveis certo? Errado. A dita estabilidade estava sendo construída em detrimento de um outro substrato chamado classe média-baixa. Esse substrato estava sendo praticamente suprimido, sucateado, em benefício dessa classe média-alta. Esse governo, já deve estar claro, era o governo do PSDB.

                Quando Lula ganhou a eleição, em 2002, este mesmo fato se deu exatamente por causa da situação da referida classe média-baixa, que não aceitava mais ser governada por uma minoria voltada para si mesma e que, como acontecia de fato, a relegasse completamente. Membros da classe média-alta também votaram em Lula, mas talvez não tivessem imaginado que o governo fosse tomar o rumo que tomou.

                Pois bem. Antes mesmo de ser descoberto o esquema do Mensalão, assim que o Lula começou com seus discursos meio bolcheviques, meio simplórios, meio toscos e que, simultaneamente - e isso é o que pesava mais -, decisões eram tomadas em favor da classe média-baixa, às vezes em detrimento da classe média-alta, começou a aparecer uma enxurrada de críticas ao governo. Essas críticas vinham de ricos, intelectuais, estudantes e outras categorias, mas sempre tinham uma coisa em comum: total inconformismo em relação a um certo "jeito de falar" do presidente. Lula, diante disso, engrossava a voz e, de pirraça, pra fazer graça para seus eleitores preferidos - a classe média-baixa que o elegera - dizia-se discriminado, usando os piores jargões que encontrasse em seu dicionário de expressões chulas. Não era e é assim?

                O que eu vou dizer agora é de alguém que nunca ganhou absolutamente nada com qualquer tipo de corrupção e nem, absolutamente, nega, quer seja o vulto da corrupção descoberta com o chamado Mensalão quer seja a inadmissibilidade de qualquer monta de desvio de verba pública que venha a ser descoberto.

                Caríssimos, se não tivesse havido o Mensalão, eles o teriam inventado. Parte da sociedade brasileira estava ajuntando todas as suas forças para desmoralizar e enfraquecer Lula e seu governo. O que você vê hoje na bolsa de valores, flutuações arrepiantes em funções de pesquisas eleitorais como forma de pressionar a saída do governo que aí está, já nessa época estava formado. O que veio depois, por incrível que pareça, para mim, não foi tão surpreendente quanto para boa parte das pessoas - aquelas que não tinham a mesma percepção que eu. Não que eu não tivesse me assustado ao ver aquele pacote sendo passado de mão a mão, pela tela da TV, nem que não tivesse sentido embrulhos no estômago, dia após dia, a cada novo depoimento, a cada novo roubo descoberto.

                Mas sempre se falou em corrupção. Sempre se soube que ela existia. A diferença, nesse caso, era que se estava tratando de corrupção - e muita corrupção - vinda de um grupo que nunca antes havia estado no poder, pelo menos não no Governo do Brasil. Senão vejamos: não era exatamente isso que o Lula falava? "Não sejam hipócritas!". Mas então devíamos aceitar tudo aquilo como normal? Claro que não. Enquanto se perdia tempo tentando desmascarar o Lula - se ele sabia ou não, e também não é difícil dizer o que ele sabia e o que ele não sabia - o que para mim era e é mais gritante parece que ainda não fez eco no ouvido de muita gente. Eu espero estar fazendo no ouvido de quem me lê. É o seguinte.

                Como é sabido, Lula usou de todos os artifícios para encobrir a CPI. Como está no livro citado, chegou-se a criar uma outra CPI, a CPI do Mensalão, para desviar as atenções da CPI dos Correios. Tentou blindar Dirceu. Tento blindar Palocci. Não conseguiu. Do outro lado estavam lá todos os meios de comunicação investindo tudo o que podiam para tentar descobrir toda a corrupção que pudessem - pelo menos toda aquela que os tornassem, em seu papel, competitivos. Não deveriam? Claro que deveriam. Lula conseguiu impedir? Não, não conseguiu. Mas tentou, claro que tentou. Não teria soado isso como crime, de uma pessoa que se dizia líder do "Ética na Política"? Sim, assim soou e ainda soa. Mas vamos analisar por outro lado: se a dimensão que o esquema ia tomando parecia assustadora, principalmente no que tocava a sua amplitude em número de envolvidos e montantes, a mobilização feita para desbancar os esquemas - pelo menos os rentáveis em termos políticos e midiáticos - também o foi, em igual ou maior proporção.

O que estou querendo dizer é que, provavelmente, este não foi o maior esquema de corrupção que existiu no Brasil nem sequer se aproximou disso, mas, sim, foi o mais perseguido (*). Junte-se a isso que, com sua inexperiência, na época, em Governo Federal e seus esquemas corruptíveis, o PT cavou sua própria cova, tanto por ter extrapolado o que talvez pudesse controlar quanto por ter deixado vazar de todos os lados as rebarbas desses esquemas. Vejamos:
                - A imprensa não pôde ser freada. Lula tentou, claro que ele tentou, mas não conseguiu. Ainda que se cogite fazê-lo, acerca de perseguições a delatores - o caso de Santo André talvez seja o mais gritante – essas não se podem comparar às prisões da época da ditadura, por mais que alguns queiram. As notícias hoje correm muito rapidamente. Se alguém tentar, por exemplo, calar Paulo Roberto da Costa em sua delação premiada, em poucos minutos a notícia vai correr. Corre, pelo menos, a dúvida - como corre, por exemplo, corre a dúvida sobre quem aterrou o vôo de Eduardo Campos em plena campanha para Presidente da República;
                - As distâncias a que chegaram os noticiários, como se vê claramente no referido livro, vão muito além dos dólares nas cuecas e nos aviões vindos de Cuba. A CPI atingiu os Correios, o país, o Governo, mas também atingiu o bolso dos trabalhadores. Quantos projetos deixaram de se iniciar enquanto os acusados eram entrevistados? Quantos contratos deixaram de ser assinados durante e por causa das CPIs? Quanto deixou de ser feito em prol dessa investigação? Claro que tinha que ser feita. Mas o preço foi alto, muito mais alto do que já se havia pago até hoje em termos de esforço para encontrar corrupção;
                - Enfim, e talvez este seja o ponto mais gritante desta análise: notoriamente, sendo que isso é possível ler nas entrelinhas do livro, toda vez que as investigações se aproximavam de algo que não tivesse beneficiado o Governo ou seus aliados e que, portanto não fosse alvo da oposição, a investigação dos meios de comunicação não ia adiante. Isso fica patente no caso do chamado Mensalão Mineiro, para citar o mais óbvio – e a partir deste ponto abstenho-me de detalhes.

                Mesmo assim, com todo esse custo, toda a falta de ética e a rudeza de Lula e do PT, nos últimos 12 anos este país atingiu índices nunca antes atingidos: índices de combate à pobreza, de distribuição de renda, de comércio e investimentos do e para o exterior, de produção e indicadores econômicos, em geral. São índices oficiais, extraoficiais e mensuráveis: o salário mínimo, por exemplo, vale hoje, em dólares, mais de 2,5 vezes o que valia em 2002.

                É claro que ele, o Lula, sabia que havia um esquema de propina, ou, na melhor das hipóteses de um lobby corrompido – diga-se de passagem, também usado por governos anteriores –, bem como sabia que seus homens de confiança (leia-se José Dirceu e demais "mensaleiros" do PT e dos partidos aliados) estariam metidos nesse esquema; é claro que ele também sabia que havia esquemas semelhantes nas administrações regionais do PT (leia-se Santo André, Ribeirão Preto e outras). Por outro lado, pergunte a qualquer repórter político se haverá esse esquema no próximo governo, seja ele do PT ou não: haverá, é claro. Pergunte a esse repórter se será possível governar sem ele: não, não será. Então, não temos que combatê-lo? Sim, temos, veementemente, mas não colocando no poder um partido que venha a servir aos interesses da direita ou do que quer que represente incrementar a má distribuição de renda e a subjugação de qualquer classe social.

                Lula fez alianças com coronéis? Fez. Fingiu não ver acontecerem pagamentos de propinas? Sim, o fez. O que Lula não fez foi colocar toda a indústria nacional trabalhando em prol de uma minoria. Isso, havemos de convir, custa muito, muito mais caro - imensuravelmente mais caro à nação.

                Hoje eu vejo pessoas próximas, por quem tenho apreço, ridicularizarem ou mesmo vaiarem a presidente da república, justificando-se por traços cuja negatividade é altamente questionável, como, por exemplo, a opção de ela se auto intitular "presidenta" e não "presidente", como alguns querem. Ridículo e, no mínimo, sintoma de despeito. Mais do que isso, são atitudes que denotam uma certa revolta em relação a um resultado que favorece outros grupos econômicos que não o seu próprio.

                De forma que, no momento, não tenho motivo nenhum para votar no partido que governava anteriormente e que fez com que o país atingisse o ápice da desigualdade social e econômica.

(*) A esse respeito veja-se "Mensalão: Corrupção de Varejo", por Adriano Benayon ( http://www.maoslimpasbrasil.com.br/colunistas/adriano-benayon/215-mensalao-corrupcao-de-varejo )

29.3.14

Informática na Escola

https://www.youtube.com/watch?v=19cTdFlDFI4&feature=share


Eu diria que há algo de verdadeiro nessa apresentação. Entretanto, a verdadeira demanda do futuro não é para programadores e sim para o que chamamos arquitetos de software. A diferença é que uns são "codificadores", ou seja, criam "códigos", comandos em uma linguagem que o computador aceita, ao passo que outros realmente criam sistemas, aplicativos e portais, quer dizer, levantam necessidades, elaboram desenhos e fornecem os elementos necessários para que se desenvolva o software.

O que estamos vivendo hoje, de certa forma, se assemelha ao que vivemos na década de 70, quando havia uma pequena casta de seres humanos capaz de gerar programas - no caso para computadores de grande porte, os mainframes - e os demais, pobres mortais, tinham que se ajoelhar aos pés desses poderosos gênios. A semelhança está na forma como as grandes empresas estão tratando o desenvolvimento de software nesta década - e que já o vêm fazendo desde a década passada.

O desenvolvimento de software hoje era para ser quase 100% visual, ou seja, perto de zero por cento de codificação e perto de 100% de desenho e utilização de ferramentas visuais. A tecnologia para se crirarem componentes quase totalmente visuais, com um mínimo de código a elaborar, já existe há muito tempo e começou a crescer nas décadas de 80 e 90. Porém, mais recentemente, entramos numa espécie de retrocesso no processo evolutivo do desenvolvimento de software. Algumas empresas aliaram-se a "gênios" da programação e investiram muito em codificação. Isso criou uma demanda muito maior do que era para existir para esse tipo de trabalho.

Toda aquela demanda anunciada no vídeo poderá ser reduzida a 1/3 - ou seja, exatamente o que o mesmo video prenuncia que será a oferta - se se investisse mais na produção visual de software, com um mínimo de código. Talvez isso ainda aconteça. A tecnologia está aí, é mais uma questão de adequação do mercado. Bolhas devem estourar nesse caso, se é que você me entende.

Em relação à introdução da programação de computadores como matéria escolar, considero-a de importância a ser tratada, mas com extremo cuidado quanto à natureza do computador e sua atuação sobre o operador, particularmente o programador. A matéria é necessária dada a abrengência do ambiente informático como meio de comunicação e armazenamento de informações, além, é claro, do volume de serviços que a informática hoje presta.

Entretanto, o computador pode provocar dois grandes desastres no ser humano - e um está ligado ao outro.

O primeiro é a destruição do senso de disciplina, sem o qual qualquer crescimento pessoal fica comprometido. Isso acontece porque, na medida em que o computador apresenta resultados imediatos perante a atuação do programador, sem perceber todo o foco da concentração desse programador vai sendo transferido para esse resultado imediato, fazendo com que a inteligência desse programador se desenvolva muito em algumas operações e muito pouco em outros tipos de raciocínios. Ou seja, uma inteligência viciada. A esse respeito, tenho testemunho de pais que vêem seus filhos, dia a dia, se tornando pequenos monarcas dentro de seus redutos informáticos, com todos os requintes autoritários pertinentes.

O segundo ponto é que essa indisciplina pode criar seres tipo "nerds", seres que, além de antissociais, vão ter sua saúde física e mentalmente prejudicadas.

Bem, não estou querendo dizer que o computador vai "emburrecer" os seres humanos. Isso se dizia das calculadoras na década de 70 e viu-se que nada disso ocorreu, pelo contrário. Acho, sim, que a informática pode contribuir para a inteligência do ser humano. Mas para que isso traga realmente resultados positivos, tudo tem que ser disciplinado. A programação visual pode, também nesse caso, contribuir.

Também discordo de certos psicólogos e sociólogos que dizem que a tecnologia, por si só, torna os adolescentes mais antissociais, como já vi palestras a respeito. Acho que, sob esse aspecto, os tablets, phablets e super-telefones são apenas mais um meio de eles se comunicarem entre si e, ao contrário do que esses pedagogos dizem, vêm contribuindo significativamete para a melhoria do diálogo entre os jovens. (Professores de português vão querer me atacar nesse ponto, mas eles que me disculpem, estão subestimando a inteligência da juventude em questão.)

 

21.6.13

Sobre o Movimento Facebook Já e a PEC 37

    Aparentemente, não estou sendo compreendido em relação ao intuito das minhas críticas a este movimento que acontece desde segunda-feira até hoje pelas ruas. Talvez os dois maiores problemas por que o Brasil passa hoje sejam 1. A má administração de verbas públicas e 2. a persistente hegemonia do PT, que inviabiliza uma gestão pública revigorada e, portanto, é também uma das causas do primeiro problema citado. Para sanar esses problemas é necessária a troca de poder e, portanto, a evidência de uma liderança política capaz de substituir o poder hoje ocupado pelo PT. Você e eu sabemos que Dilma Roussef está no poder por que a liderança que foi apresentada para evitar que ela fosse eleita foi de José Serra, um político tão fraco que não é capaz de exercer liderança nem em seu próprio partido.

    Este movimento está cercado de más intenções, como você deve estar observando em comportamentos que vão desde as mais diversas formas de vandalismo até as manifestações oportunistas que se intercalam entre as mais justas, sejam estas as de preços de passagens e verbas públicas. Trata-se de um movimento caracterizado por total ausência de liderança política, portanto, completamente incapaz de solucionar os problemas que citei acima. Me perdoem todos vocês mas considero até de certa forma irresponsável atribuir a um movimento como este a responsabilidade por realizar as mudanças de que precisamos.

    Se o Facebook é capaz de reunir tanta gente, então cabe a nós, a partir de agora, organizarmos movimentos, quiçá até bem maiores do que este, mas providos de liderança de direcionamentos políticos realmente capazes de influenciar no rumo da política nacional.

    Quanto à questão da PEC 37, de fato o momento de sua votação não é oportuno e denota interesses unilaterais por parte do legislativo. Entretanto, os efeitos dessa emenda no combate à corrupção não são suficientemente conhecidos sequer pelos juristas envolvidos, quanto mais pelos leigos, como nós.

    Agora se, de fato, após esta semana que agora finda, os rumos da administração pública mudarem - não apenas abaixando a passagem de ônibus, mas revertendo, de fato, verbas para a saúde e a educação - então dou minha mão à palmatória e hei de reconhecer seus efeitos. Infelizmente não acredito nisso.

Mais... http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2013/06/130620_efeitoeleitoral_protestos_jf.shtml

19.5.13

Queria Te Ver

Queria te ver, sim
Por várias coisas;
Porque vacilei, sim,
Mas mais que isso
Porque tu sabias de mim
Mais do que eu de mim sabia!

E também porque, quando nos despedimos,
Eu não sabia o quanto gostava de ti;
Porque fiquei tão cego quanto a não gostar
Quanto fiquei quanto a gostar.

Quando começamos,
Quando nossos olhos, pegando fogo,
Se amaram
E gritaram, com loucura, "Eu te amo"...

Queria te ver pra rever
Esses teus olhinhos
Pretos e sinceros
Que durante o resto da vida
Tanta falta me fizeram!

Queria te ver pelos teus filhos,
Que por algum motivo também não são meus;
Mas devem trazer dentro de si
O amor que deixei dentro de ti.

E por isso queria te ver,
Pra ver de novo esse amor que é meu,
Porque você não pode deixar de ser
O amor que em mim deixou;
E porque de saudade eu sofro
E peço a Deus para te ver.

Quero te ver pra te beijar,
Esse rosto que tanto amei
E que um dia detestei,
Por puro orgulho ou sei lá.
Quero te beijar e te amar
E te acalmar com minha paz
Para que tu sejas feliz,
Para que tu sejas também
Um pedaço dessa paz!

28.11.12

O Encontro


O Encontro

                Ela viu que eu estava sozinho e veio conversar comigo. Perguntou meu nome, se apresentou, e foi me contando como e porque havia chegado ali, com muita intimidade. Ela estava chegando de Goiânia, onde estava visitando a mãe. Eu não sabia se ficava empolgado, desconfiado ou com dó. Confesso que fiquei com um pouco de dó. Depois tive que sair, alguém me chamou para dizer algo e pedi licença. É claro que minha saída foi proposital, queria ver até onde ia o interesse daquela moça por mim.

                Depois acabamos nos encontrando novamente. Ou melhor, ela me encontrou de novo, assim que acabei minha conversa com a pessoa que havia me chamado. Ela perguntou se eu iria ao baile dos Anos 70. Eu disse que sim. Perguntou se eu tinha mesa e se tinha lugar na minha mesa, eu disse que não sabia, porque, na verdade, a mesa não era minha, mas que ia ver para ela.

                Fiquei olhando aquela menina, diante de mim, bonita, sem grandes exuberâncias. Esbelta, um sorriso de Mona Lisa, pele muito macia, devia ter passado dos 30, pensei. Confesso que avaliei se gostaria de ficar com ela no baile - até porque ela estava, de fato, se insinuando e essa possibilidade começou a se tornar bem presente.

                Ajudei-a a comprar o ingresso, providenciei-lhe um lugar na minha mesa. Ela ficou feliz, mas manteve o sorriso de Mona Lisa, por algum motivo. Perguntou-me como eu iria, se eu ia de carro. Imediatamente ofereci carona (faltou ela pedir explicitamente!). Bem, ela de imediato aceitou. E assim ficamos combinados: iríamos ao baile juntos.

                Tentei me despedir, mas vi que ela me acompanharia até a porta, então descemos as escadas conversando. Ela era solteira, morava sozinha numa Kit. Confesso que isso me atraiu logo de cara: mulheres independentes! Isso pode ser o paraíso para solteiros... pode não ser. Pode não ser se se tratar de alguém complicado, com manias... Bom, vejamos, assim como eu, talvez. Enfim, não me parecia o caso. A conversa dela era leve, descomplicada, não me inspirou cuidados especiais ou algo parecido.

                Eu também não quis prolongar muito a conversa. Estávamos na rua e isso podia deixá-la desconfortável. De modo que nos despedimos. Ela entrou no seu hat preto e eu no meu hat marrom e fomos para casa.

O Caminho do Baile

                Entre esse nosso primeiro encontro, na quinta e o sábado, dia do baile, pensei nela algumas vezes, mas não muitas. O pensamento não era tanto nela, mas no que ela estaria a fim de fazer: de ficar comigo, de só pegar carona, de transformar minha noite em algo chato ou de ir para minha casa. Ou seja, todo um leque de possibilidades.

                Algumas coisas para mim se confirmaram já no sábado, pela manhã, quando recebi um recado via mensagem de texto, em meu telefone. O recado dizia:

                - Você vai mesmo passar aqui hoje?

                Isso me trazia algumas conclusões. 1. Ela estava com medo de levar um bolo; 2. Ela estava pensando em mim. Isto não é pretensão: até onde sei, é muito raro uma mulher motorizada como ela estar preocupada com uma carona com alguém que mal conhece... Para um baile!; 3. Minha noite corria, de fato, um risco de ser um fiasco.

                Essa última conclusão pode parecer precipitada. Mas, pela minha experiência, mulheres que ficam inseguras quanto aos tratos feitos tendem a ser enfadonhas. Espero que me perdoem o preconceito.

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                Apanhei-a às 22:30h, na porta de sua casa. Ela me fez esperar alguns minutos, o que me fez retirar parte da impressão de que havia insegurança - e, ao mesmo tempo, me deu um pouco de ânimo, por isso mesmo. Tive uma boa surpresa quando a vi: ela estava de fato bonita, com uma roupa meio escura, bem apropriada. Seu perfume era um pouco estranho, mas combinava com o sorriso de Mona Lisa. Ela me transmitia certa tranquilidade, apesar de tudo.

                Logo que entramos no carro, descobri que tínhamos muita coisa em comum. Éramos ambos analistas de sistemas, tínhamos ambos mais de 40, vínhamos ambos de Minas, morávamos ambos em Brasília há mais de 20 anos. Ela mantinha encontros com as amigas de infância, por isso ia a Minas todos os anos.

                - Isso é sensacional, como no “Encontro Marcado” - eu disse.

                À medida que íamos conversando, eu ia cada vez mais me admirando daquela figura que ia pintando diante de mim. Acho que fiquei, mesmo, muito empolgado, pois havia uma senhora que parava o carro ao nosso lado no sinal de trânsito e ficava olhando. Isso se repetiu umas três vezes, com essa mesma senhora.

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                Eu sou um cara tímido. Com a maioria das pessoas, para evitar que o assunto acabe, eu faço um esforço tremendo para arranjar perguntas não muito desinteressantes - ou seja, para evitar os típicos "onde você trabalha?", etc. Porém, não faltou assunto até entrarmos no clube. É verdade que falamos sobre banalidades, mas, convenhamos, banalidades bem faladas são ótimas para o caminho do baile!

                Mas ela também me contou que havia sido casada e que o casamento havia sido legal nos primeiros anos. Compartilhamos algumas coisas, apesar de que meu casamento durou menos e não foi tão legal durante tantos anos. Ela me contou que não tinha filhos e eu lhe disse que eu ainda queria ter filhos. Aliás, quando falei isso achei de mau gosto, da minha parte. Afinal, se ela não tinha filhos e tinha quarenta e poucos anos, não foi muito oportuna minha colocação.

                Achei muito engraçado quando descemos do carro. Comentei que o lugar era escuro, ao que ela retrucou:

                - Fique tranquilo. Comigo você não tem com que se preocupar.

                - Que ótimo - respondi. - Eu acredito.

O Baile

                Entramos no salão e eu nos imaginei entrando na pista de dança. Nessa hora, tive a agradável sensação de que a noite estava salva. Não, não foi nada que tivesse visto no salão e que me tivesse feito pensar isso: foi o simples fato de que, desde a casa dela até aquele momento não tinha tido sequer um segundo de desânimo ou qualquer sinal de que algo sairia errado.

Encontramos nossos companheiros de mesa e, nessa hora, percebi que estava mais íntimo dela do que deles. Então não tive mais dúvida, ficaria com ela essa noite.

                Combinamos que iríamos olhar um pouco a pista de dança antes de nos aventurarmos. E assim fizemos: apreciamos os casais, comentamos, rimos e logo sentimos à vontade para dançar. O problema é que, nessa hora, estava tocando uma música que, definitivamente, não se enquadrava em nada do que supúnhamos estar aptos a dançar. Então ela me disse:

                - Você sabe dançar música lenta?

                - Bem, se for como eu dançava quando tinha dez anos de idade...

                - Então vamos.

                E aí, acabávamos de romper o protocolo. Só havia dois loucos a dançar "agarradinho" no salão: nós. A festa mal tinha começado. Estávamos namorando.

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                Mas eu ainda não tinha beijado a moça. E não sabia quando e como fazê-lo. Vejam como são essas coisas: a gente tem anos de estrada, a moça está ali, "super-a-fim" e, ainda assim, tem que ter o momento certo. Mas, para a minha felicidade, esse momento não demorou muito.

                Primeiro, a música mudou, e a gente começou a dançar num ritmo bem mais rápido. Eu rodava a moça e ela ria. Era muito bom. Eu achava que ela estava rindo de mim, mas depois ela me falou que era incrível, pois ela achava que não sabia dançar e eu estava fazendo-a dançar. Isso massageou meu ego.

                Mas eu ainda não a tinha beijado. Sentamos e depois voltamos à pista. Eu posso não saber o momento exato de beijar a moça, mas eu não tenho dúvidas quando isso vai acontecer. Pode não dar certo, mas quando vem a onda, não tem como não acontecer. E assim foi.

                Foi um beijo longo. Eu fechei os olhos e só fui pensar se aquilo agradou ou não quem estava vendo muito tempo depois. Muuuuuiiiiito tempo depois. Quando voltamos para a mesa, já éramos namorados. De verdade.

 Sandra

                Depois do baile, nenhum telefonema. Tentei falar com ela no domingo, sem sucesso. Consegui falar com ela na terça-feira. Perguntei-lhe por que havia sumido: ela, de início, falou sobre sono atrasado e problemas de operadora de telefone. Depois ela me disse que estava um pouco desapontada, porque eu lhe havia dito que gostaria de ter filhos e ela não poderia ter filhos. Confesso que fiquei muito tocado e disse que não fazia sentido ela ter ficado tão sensibilizada com isso. Enfim, disse-lhe que ela era uma pessoa muito especial e que não devia, mesmo, ficar pensando nisso. E que queria encontrá-la novamente.

                Depois disso ela sumiu. Seu telefone não atendia, não respondia minhas mensagens. Enfim, depois de uma longa e torturante semana, resolvi ir a sua casa sem avisar. Pedi à atendente, na portaria, que chamasse seu apartamento. Sem resposta. Perguntei-lhe se ela tinha alguma notícia da moça, mas, nada. Retornei a sua casa mais três vezes, dia após dia, em horários diferentes e nada. No terceiro dia, quem estava na portaria era o vigilante noturno. Perguntei-lhe se ele sabia algo sobre a moça do D-407.

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                Ela havia se apresentado a mim como Sandra. Seu nome era Bernadete. Bernadete Oliveira Mendonça. Bernadete havia vindo de Goiânia para Brasília por conta de um assalto a banco. Seu marido (na verdade ela nunca se separou) era o chefe de uma quadrilha e Sandra (Bernadete) estava em Brasília há pouco mais de um mês por conta do assalto. Seu marido - Afonso Boaventura Alonso - estava preso em Goiânia e Bernadete estava, desde então, tentando levantar fundos para pagar a fiança do marido.

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                Não sei se vou encontrar Sandra novamente, mas a sensação que tenho é que ela deixou uma cratera no meu coração.