20.10.14

Por que Eu Não Voto no PSDB

                Logo após a votação do primeiro turno das eleições deste ano, um amigo meu, com quem costumo conversar sobre política, enviou-me um e-mail em que dizia:
 
“Prezado Rodrigo,

Acredito que todos nós queremos o melhor para o Brasil. Venha da Direita ou da Esquerda. Porém, com o PT é diferente. Por favor, leia o livro "O Chefe" de Ivo Patarra e depois comente comigo.”
 
Não foi agradável ler tudo aquilo de novo. Sim, de novo, porque o livro, como vocês bem podem verificar, não passa de uma compilação de tudo o que foi publicado na imprensa durante a chamada "CPI dos Correios". Mas eu havia lhe prometido, então, cumpri.

                Em outras oportunidades já declarei, mas vou repetir mais uma vez, para que quem me ouça ou me leia possa se lembrar, a cada palavra que eu disser: nunca fui militante do PT, nunca fui sequer simpatizante do PT. Ao contrário, remando contra a maré, quando estudante universitário, já naquela época, sempre fui contra os movimentos estudantis influenciados pela CUT - cria do PT. Da mesma forma raramente apoiei, quando bancário, os movimentos grevistas liderados pelo Sindicato dos Bancários. Motivos:
                - Comportamento influenciado pelos movimentos comunistas estrangeiros, mal adequados à nossa realidade;
                - Atividades voltadas para interesses pessoais, de ascensão política, dos condutores;
                - Atitudes grosseiras ("toscas") dos articuladores, que mal sabiam falar, sempre agressivos, intimidadores, meio ignorantes, mesmo;
                - Dúvidas que eu tinha sobre a honestidade desses articuladores - será que usavam a verba do DCE para consumo próprio? Será que viajavam a lazer com esse dinheiro, etc.;
                - Discurso "bolchevique", estilo "Companheiros!", etc.

                Alguma semelhança com algo (ou alguém) que conhecemos? Certo. Nesse caso, por que eu estaria aqui, agora, polemizando com meu posicionamento político? Relembremos os fatos que marcaram minhas posições.

                Desde que eu – acredito que também quem me lê – me entendo por gente, ouço falar de um país - o nosso país - castigado por:
                - Uma cultura individualista, herdada da época da colonização, em que a população foi formada por aventureiros, escravos, aristocratas e criminosos, tão diferentes entre si  mas com uma coisa em comum: de maneira geral, todos lutavam apenas por seus interesses pessoais, sempre com foco si mesmos, como indivíduos. Talvez os escravos tivessem um sentimento comunitário, mas estando em minoria e prejudicados, na melhor das hipóteses agiam em prol de seu próprio substrato social;
                - Uma péssima - por que não dizer criminosa - distribuição de renda e, decorrente dela:
                - Uma condição de pobreza extrema e fome na maior parte da população e, finalmente,
                - Uma condição de país explorado e subjugado pelo resto do mundo.

                Saindo das condições mais antigas e primárias e nos aproximando do presente, vimos o país passar por várias fases políticas, sendo as mais recentes:
                - Uma democracia frágil que ao final se sujeitou a um golpe militar;
                - Uma ditadura militar que, sob a capa de um "milagre econômico" plantou a raiz de um aumento exponencial na pobreza e na má distribuição de renda, ao tempo em que calava a boca de seus oponentes, se preciso matando e torturando;
                - Uma nova fase de democracia frágil que veio caminhando de um governo de semicorreligionários da ditadura militar para um governo de centro-esquerda, passando pelo neoliberalismo enlouquecido e pela inflação galopante, acompanhada da desigualdade plantada, entre outras coisas, pelo tal "milagre econômico".

                Mas passado esse processo, já na década de 90, dois fatos saltavam aos olhos:
                1. O Brasil conseguiu atingir uma estabilidade monetária, calcada em fórmulas ortodoxas, mas, diferentemente de tentativas anteriores, mais bem adaptadas à realidade nacional e mais bem sucedidas, entretanto:
                2. O Brasil estava sendo governado por membros de uma minoria e apenas em função dela, para ela.

                Essa minoria não era de um grupo de milionários - apesar de haver muitos deles dentro dela - mas sim de um grupo maior, de empresários e trabalhadores de classes alta e média-alta. Até aí sem maiores problemas, certo? Estávamos estáveis certo? Errado. A dita estabilidade estava sendo construída em detrimento de um outro substrato chamado classe média-baixa. Esse substrato estava sendo praticamente suprimido, sucateado, em benefício dessa classe média-alta. Esse governo, já deve estar claro, era o governo do PSDB.

                Quando Lula ganhou a eleição, em 2002, este mesmo fato se deu exatamente por causa da situação da referida classe média-baixa, que não aceitava mais ser governada por uma minoria voltada para si mesma e que, como acontecia de fato, a relegasse completamente. Membros da classe média-alta também votaram em Lula, mas talvez não tivessem imaginado que o governo fosse tomar o rumo que tomou.

                Pois bem. Antes mesmo de ser descoberto o esquema do Mensalão, assim que o Lula começou com seus discursos meio bolcheviques, meio simplórios, meio toscos e que, simultaneamente - e isso é o que pesava mais -, decisões eram tomadas em favor da classe média-baixa, às vezes em detrimento da classe média-alta, começou a aparecer uma enxurrada de críticas ao governo. Essas críticas vinham de ricos, intelectuais, estudantes e outras categorias, mas sempre tinham uma coisa em comum: total inconformismo em relação a um certo "jeito de falar" do presidente. Lula, diante disso, engrossava a voz e, de pirraça, pra fazer graça para seus eleitores preferidos - a classe média-baixa que o elegera - dizia-se discriminado, usando os piores jargões que encontrasse em seu dicionário de expressões chulas. Não era e é assim?

                O que eu vou dizer agora é de alguém que nunca ganhou absolutamente nada com qualquer tipo de corrupção e nem, absolutamente, nega, quer seja o vulto da corrupção descoberta com o chamado Mensalão quer seja a inadmissibilidade de qualquer monta de desvio de verba pública que venha a ser descoberto.

                Caríssimos, se não tivesse havido o Mensalão, eles o teriam inventado. Parte da sociedade brasileira estava ajuntando todas as suas forças para desmoralizar e enfraquecer Lula e seu governo. O que você vê hoje na bolsa de valores, flutuações arrepiantes em funções de pesquisas eleitorais como forma de pressionar a saída do governo que aí está, já nessa época estava formado. O que veio depois, por incrível que pareça, para mim, não foi tão surpreendente quanto para boa parte das pessoas - aquelas que não tinham a mesma percepção que eu. Não que eu não tivesse me assustado ao ver aquele pacote sendo passado de mão a mão, pela tela da TV, nem que não tivesse sentido embrulhos no estômago, dia após dia, a cada novo depoimento, a cada novo roubo descoberto.

                Mas sempre se falou em corrupção. Sempre se soube que ela existia. A diferença, nesse caso, era que se estava tratando de corrupção - e muita corrupção - vinda de um grupo que nunca antes havia estado no poder, pelo menos não no Governo do Brasil. Senão vejamos: não era exatamente isso que o Lula falava? "Não sejam hipócritas!". Mas então devíamos aceitar tudo aquilo como normal? Claro que não. Enquanto se perdia tempo tentando desmascarar o Lula - se ele sabia ou não, e também não é difícil dizer o que ele sabia e o que ele não sabia - o que para mim era e é mais gritante parece que ainda não fez eco no ouvido de muita gente. Eu espero estar fazendo no ouvido de quem me lê. É o seguinte.

                Como é sabido, Lula usou de todos os artifícios para encobrir a CPI. Como está no livro citado, chegou-se a criar uma outra CPI, a CPI do Mensalão, para desviar as atenções da CPI dos Correios. Tentou blindar Dirceu. Tento blindar Palocci. Não conseguiu. Do outro lado estavam lá todos os meios de comunicação investindo tudo o que podiam para tentar descobrir toda a corrupção que pudessem - pelo menos toda aquela que os tornassem, em seu papel, competitivos. Não deveriam? Claro que deveriam. Lula conseguiu impedir? Não, não conseguiu. Mas tentou, claro que tentou. Não teria soado isso como crime, de uma pessoa que se dizia líder do "Ética na Política"? Sim, assim soou e ainda soa. Mas vamos analisar por outro lado: se a dimensão que o esquema ia tomando parecia assustadora, principalmente no que tocava a sua amplitude em número de envolvidos e montantes, a mobilização feita para desbancar os esquemas - pelo menos os rentáveis em termos políticos e midiáticos - também o foi, em igual ou maior proporção.

O que estou querendo dizer é que, provavelmente, este não foi o maior esquema de corrupção que existiu no Brasil nem sequer se aproximou disso, mas, sim, foi o mais perseguido (*). Junte-se a isso que, com sua inexperiência, na época, em Governo Federal e seus esquemas corruptíveis, o PT cavou sua própria cova, tanto por ter extrapolado o que talvez pudesse controlar quanto por ter deixado vazar de todos os lados as rebarbas desses esquemas. Vejamos:
                - A imprensa não pôde ser freada. Lula tentou, claro que ele tentou, mas não conseguiu. Ainda que se cogite fazê-lo, acerca de perseguições a delatores - o caso de Santo André talvez seja o mais gritante – essas não se podem comparar às prisões da época da ditadura, por mais que alguns queiram. As notícias hoje correm muito rapidamente. Se alguém tentar, por exemplo, calar Paulo Roberto da Costa em sua delação premiada, em poucos minutos a notícia vai correr. Corre, pelo menos, a dúvida - como corre, por exemplo, corre a dúvida sobre quem aterrou o vôo de Eduardo Campos em plena campanha para Presidente da República;
                - As distâncias a que chegaram os noticiários, como se vê claramente no referido livro, vão muito além dos dólares nas cuecas e nos aviões vindos de Cuba. A CPI atingiu os Correios, o país, o Governo, mas também atingiu o bolso dos trabalhadores. Quantos projetos deixaram de se iniciar enquanto os acusados eram entrevistados? Quantos contratos deixaram de ser assinados durante e por causa das CPIs? Quanto deixou de ser feito em prol dessa investigação? Claro que tinha que ser feita. Mas o preço foi alto, muito mais alto do que já se havia pago até hoje em termos de esforço para encontrar corrupção;
                - Enfim, e talvez este seja o ponto mais gritante desta análise: notoriamente, sendo que isso é possível ler nas entrelinhas do livro, toda vez que as investigações se aproximavam de algo que não tivesse beneficiado o Governo ou seus aliados e que, portanto não fosse alvo da oposição, a investigação dos meios de comunicação não ia adiante. Isso fica patente no caso do chamado Mensalão Mineiro, para citar o mais óbvio – e a partir deste ponto abstenho-me de detalhes.

                Mesmo assim, com todo esse custo, toda a falta de ética e a rudeza de Lula e do PT, nos últimos 12 anos este país atingiu índices nunca antes atingidos: índices de combate à pobreza, de distribuição de renda, de comércio e investimentos do e para o exterior, de produção e indicadores econômicos, em geral. São índices oficiais, extraoficiais e mensuráveis: o salário mínimo, por exemplo, vale hoje, em dólares, mais de 2,5 vezes o que valia em 2002.

                É claro que ele, o Lula, sabia que havia um esquema de propina, ou, na melhor das hipóteses de um lobby corrompido – diga-se de passagem, também usado por governos anteriores –, bem como sabia que seus homens de confiança (leia-se José Dirceu e demais "mensaleiros" do PT e dos partidos aliados) estariam metidos nesse esquema; é claro que ele também sabia que havia esquemas semelhantes nas administrações regionais do PT (leia-se Santo André, Ribeirão Preto e outras). Por outro lado, pergunte a qualquer repórter político se haverá esse esquema no próximo governo, seja ele do PT ou não: haverá, é claro. Pergunte a esse repórter se será possível governar sem ele: não, não será. Então, não temos que combatê-lo? Sim, temos, veementemente, mas não colocando no poder um partido que venha a servir aos interesses da direita ou do que quer que represente incrementar a má distribuição de renda e a subjugação de qualquer classe social.

                Lula fez alianças com coronéis? Fez. Fingiu não ver acontecerem pagamentos de propinas? Sim, o fez. O que Lula não fez foi colocar toda a indústria nacional trabalhando em prol de uma minoria. Isso, havemos de convir, custa muito, muito mais caro - imensuravelmente mais caro à nação.

                Hoje eu vejo pessoas próximas, por quem tenho apreço, ridicularizarem ou mesmo vaiarem a presidente da república, justificando-se por traços cuja negatividade é altamente questionável, como, por exemplo, a opção de ela se auto intitular "presidenta" e não "presidente", como alguns querem. Ridículo e, no mínimo, sintoma de despeito. Mais do que isso, são atitudes que denotam uma certa revolta em relação a um resultado que favorece outros grupos econômicos que não o seu próprio.

                De forma que, no momento, não tenho motivo nenhum para votar no partido que governava anteriormente e que fez com que o país atingisse o ápice da desigualdade social e econômica.

(*) A esse respeito veja-se "Mensalão: Corrupção de Varejo", por Adriano Benayon ( http://www.maoslimpasbrasil.com.br/colunistas/adriano-benayon/215-mensalao-corrupcao-de-varejo )