25.11.11

Cheiros

A gente vai ficando velho e vai usando mais o tempo avaliando o quanto está ficando ranzinza. A minha tolerância a aromas está sensivelmente baixa. Estou me tornando um anti-odorista neurótico. Tenho plena consciência disto. Mas também pressinto que não será muito efetivo tentar expandir minha tolerância a odores inapropriados.
Isto se deve a vários fatores. A minha cabeça aprendeu (ainda que inapropriadamente) a interpretar odores provocados como provocações de fato. Por exemplo: um peido nitidamente escapulido sem intenção, por mais fedido que seja, jamais incomodará tanto quanto um perfume vagabundo.
Existem vários motivos para isso. Quando o cidadão adquire (e, posteriormente, quando usa) um perfume vagabundo, ele não se dá ao trabalho de imaginar se aquele cheiro será ou não conveniente em tal ou tal situações.
Na verdade, a coisa é muito mais grave (do ponto de vista, admito, de um anti-odorista neurótico). Do meu ponto de vista, quem se insere em determinado contexto munido de um cheiro inadequado não só é insensível, como é mal-educado. Sim, pois, apesar de não constar de nenhuma lei a necessidade do respeito ao cheiro natural do ar, parece-me explicitamente mal-educado poluir o ar com perfumes e outros cheiros não adequados.
A essa altura, muitos devem estar se perguntando: "será que ele está se referindo a fumaça de cigarro, por exemplo?". Terei que voltar com a história do peido. Assim como o peido escapulido, a fumaça de cigarro jamais incomodará tanto quanto um perfume vagabundo. Na verdade, nenhum cheiro consequente de um vício, mal hálito, excretos ou venenos nunca terá tanto poder de incomodar quanto um cheiro provocado - principalmente se provocado por absoluta ignorância às leis do aroma.
Outro exemplo típico: a comida mal feita. Mais uma vez, terei que me confessar neurótico, pois minha mãe é uma exímia cozinheira e, ao sentir um cheiro de comida mal feita sinto, em primeiro lugar, uma afronta ao cheiro das comidas como a dela. Além disso, o cheiro da comida vagabunda, assim como o da gordura podre, exprime a má intenção do cozinheiro (acho que aqui não preciso citar os casos reais de excretos adicionados às comidas que consumimos em restaurantes).
Assim como é notório o benefício de uma comida bem feita, é notória a maleficência de uma comida mal feita. Nesse ponto, minha neurose chega a extremos, pois, dada minha condição de solteiro, sou praticamente obrigado a comer nesses restaurantes capengas, próximos do nossos ambientes de trabalho.
E aí tenho que pegar mais um gancho, pois uma de minhas maiores atuais torturas diárias é o cheiro dos restaurantes que se instalam dois andares abaixo de onde trabalho. Outra delas - podem imaginar - é o cheiro do desodorante do... Bom, enfim, tem desodorante que tem cheiro de uma mistura de "veja multiuso" com "sapólio radium". É incrível como se consome isso.
Bom, vou parar por aqui. O respeito ao meio ambiente vai muito além do que alguns ecologistas querem. Para mim, envolve bom-senso e respeito às narinas alheias.

7.11.11

Assediados pela Internet

Pode parecer redundante ficar pensando nessas coisas. Mas o fato é que estamos em vias de presenciar mais um sério conflito do tipo anti-truste ou algo parecido. Só que, desta vez, todos nós também estaremos envolvidos.

Não sei se são só as páginas que eu visito na Web, mas as que eu visito, nos últimos dias, estão infestadas de botões verdes e azuis com a expressão "Download". É um golpe visual: você espera um botão "Download" para baixar algo que procura e se depara com dois, três ou mais botões "Download". Você não sabe em qual clicar e ainda corre o risco de instalar um vírus.

A coisa funciona da seguinte forma: você cria um site pessoal, que pode ser um blog , um site comercial da sua loja ou um simples site de divulgação de seus dotes profissionais. Você, levando em conta a possibilidade de ganhar algum dinheiro pela Web, pensa em uma forma de usar seu site para essa finalidade. Então, ouve falar nos "Ads", que são propagandas que terceiros colocam em sua página, pelas quais você é remunerado. Aí, você faz um cadastro, gratuito, no Google Ads. Ao cadastrar-se, você concorda com os termos do contrato, em que consta que o Google poderá acessar o conteúdo de sua página Web para adequar os Ads a este conteúdo. Em contrapartida, para cada clique que o Ad receber, de qualquer visitante de seu site, você receberá determinada quantia, em dinheiro, do Google. Ao atingir determinada monta, o Google mandará para você um cheque, pelo correio. Não tenha dúvida de que ele mandadará.

Muito bem. O que são os Ads? Os Ads nada mais são que caixinhas com propagandas e atalhos para outros sites. Inclusive esses "Downloads" que mencionei, que confundem a gente e pelos quais o Google não se responsabiliza - aliás, este é um detalhe importante, pois alguns dos tais dos "Downloads" contém, de fato, programas suspeitos! Comprando ou não um produto, baixando ou não um arquivo, o navegante que clicar em um Ad estará remunerando simultaneamente o Google e o autor da página onde o Ad se encontrar.

O sistema parece atrativo, mas...

O Google coloca o Ad de acordo com o conteúdo da página mas, também - e aí está a questão eticamente controversa - de acordo com o "desejo" do pobre navegante.

Vou dar um exemplo (fato real). Anteontem fiz uma pesquisa - no Google - sobre "flats" em Belo Horizonte. De lá para cá, pelo menos a metade das páginas da Internet pelas quais naveguei, continham Ads sobre hotéis em Belo Horizonte. Isso não seria um grande problema se a informação fosse repassada de parte a parte de forma explícita, ou seja, que nenhum dado ou necessidade do cliente fosse usado sem seu consentimento prévio. Imaginem que eu entro em um hotel, solicito o preço da diária e o gerente do hotel avisa a todos os mendigos - que se passam por guias turísticos - que eu estou procurando um hotel em tais e tais condições. Desta forma, assim que eu sair do saguão do hotel, serei assediado por dezenas e dezenas de "guias turísticos", deseperados para me hospedar em hoteis que, por sua vez, os teriam contratado para angariar pessoas nas minhas condições.

A sensação que eu tenho, navegando na Internet hoje, me lembra a descrição que um amigo deu ao retornar da Índia, onde ele tinha medo de sair de casa porque da portaria de seu prédio até o ponto onde tomaria sua condução ele seria assediado por centenas e centenas de indigentes desesperados por sua atenção.

É bom pensarmos nisso a cada pesquisa que fazemos pela Internet. Assim como é bom pensarmos em que solução a humanidade dará para essa nova guerra, pois, ao que parece, logo, logo nossa sobrevivência profissional dependerá dessa solução.