19.11.09

Sobre Brasília

Ceres,
A despeito de todo o misticismo atribuído a Brasília, entendo a cidade com um objetivo, por um lado muito claro, por outro, frustrado. É claro no que toca ao desenvolvimento da parte central do país. É frustrado e equivocado no que toca ao projeto arquitetônico, que previu uma cidade limitada e totalmente calcada no funcionalismo público e que, hoje, pena por não ter um parque industrial capaz de sustentar sua população de 3 milhões de habitantes. Sim, porque quem só considera o "plano piloto", ou seja a Asa Sul e a Asa Norte, ainda que acrescidos do Lago Sul, Lago Norte, Octogonal e Sudoeste - e brevemente o Noroeste - não faz juz ao que é Brasília, de fato.
Poucas são as pessoas que se dão ao luxo de viver na mencionada parte central da cidade. Eu fui um dos que foram "expulsos do paraíso". Não tenho como arcar com o custo de viver em imóveis que competem com Champs Elisée e Ipanema. Moro em Tatuatinga. Chamam isso aqui de Águas Claras, mas, na verdade, Águas Claras é Taguatinga: é apenas uma forma de não admitir que fomos expulsos do paraíso.
Niemeyer e Lúcio Costa foram brilhantes, por um lado: fizeram um projeto arrojado, funcional, belo. Foram incompetentes, por outro: não se pode criar uma cidade sem proporcionar a essa cidade uma fonte de renda. Eu hoje vivo o drama de não querer ser funcionário público. Não quero, porque não concordo e não admito sobreviver às custas de sacrifícios de outras classes sociais. Ainda por cima, não me permito ganhar mais do que o que faço por merecer. Portanto, nossos heróis se esqueceram do resto da humanidade.
E mais: criaram - e Niemeyer ainda está mantendo -, de fato, uma "ilha da fantasia". O tombamento de Brasília é um absurdo. Simplesmente, ele não permite à cidade evoluir, se adaptar. Eu tenho um amigo que fala: "Brasília tem, de fato, muita 'qualidade de vida'. Para as árvores", ele diz. "Mas eu não sou árvore!". Ou seja, precisamos de ver gente, de conviver. Brasília maltrata as pessoas. Faz com que elas sofram.
É a cidade do futuro? É, por certo: serve de exemplo de como devem ser e como não devem ser as cidades do futuro. Infelizmente, pagamos (literalmente) um preço muito alto por isso. Somos cobaias de como deverão ser as cidades do futuro.
Na construção de Brasília, como você deve saber, morreram muitas pessoas. Não havia segurança nenhuma. JK foi um cara excepcional, mas sacrificou muita gente para fazer Brasília. Literalmente. Operários morreram aos potes para construir Brasília. Some-se a isto a revolta dos cariocas e demais brasileiros que foram forçados a deixar o Rio para viver em Brasília. Ora, uma cidade que tem uma raiz podre como essa, não tem nada de mística.
Por outro lado, não vejo como não haver Brasília. As profecias, na verdade, não foram profecias: o Brasil precisava de trazer a capital para dentro para não perder seu território. Imagina, hoje, a fronteira com o Paraguai, o tráfico de drogas e a capital no Rio, como se o Brasil fosse o Rio! A tendência era metade do Brasil se incorporar aos outros países da América do Sul!
Quanto à inspiração egípcia de Kubicheck, não duvido, mas, cá entre nós, é meio irrelevante. As construções do Niemeyer, em sua maioria, são pouco funcionais, caríssimas e "para inglês ver". Tem gente torcendo pra ele morrer logo e parar com essa despeza injustificável...
E, como você mesma disse, tomara que por trás de toda a corrupção haja um foco de esperança para a humanidade e, principalmente, para o Brasil. A esse respeito, aliás, tenho a dizer que convivo com pessoas do mais alto gabarito. São pessoas que, de forma alguma, compactuam com a corrupção. Isso é que é o pior: a gente não tem nada a ver com essa putaria, somos maioria aqui (pode acreditar), e, ainda assim, pagamos pela imagem de ladroagem desta Capital.
Os místicos que me perdoem. Esse negócio de "jorrar mel" é balela. Brasília foi construída estrategicamente, a custa de muitas vidas e não é nenhum milagre, pelo contrário, além das vidas e da grana que já custou, ainda custa e custará a saúde de muita gente, inclusive eu. Se eu não tivesse, aqui, pessoas que eu amo, eu já teria saído há muito tempo.
Um beijo!
Rodrigo