26.9.16

Afastados, Mas Por Quanto Tempo?

Quem teve a oportunidade de acompanhar a trajetória da esquerda brasileira nas décadas de 80, 90 e no início do século atual, pôde observar que, junto a sua ascensão também cresceu o fisiologismo, a parte dele que especificamente proporcionava essa dita ascensão. Dissidências dentro do PT aconteciam muito antes da criação do PSOL e Lula já era visto com restrições muito antes de ser presidente.

A verdade é que Lula não teria sido eleito se não tivesse feito as alianças que fez - sendo que uma delas, como ela própria hoje admite, culminou com a destituição do governo do PT.

Mas muito se engana quem hoje acredita que a esquerda se manteve no poder por quase 14 anos somente por causa de um "projeto de poder" e por conta da manutenção de um eleitorado pobre que via - e vê - na esquerda sua grande esperança de sobrevida e sua própria ascensão. A esquerda chegou ao poder - e lá se manteve durante esses anos - como reflexo de uma tendência brasileira e de grande parte dos países que hoje tentam galgar espaço na economia mundial. Ela não vem ao poder como uma solução brilhante - e, nesse ponto, quem critica Cuba e o comunismo querendo desqualificá-la não produz mais que um calhamaço de conclusões óbvias e irrelevantes no contexto que descrevo. De fato, as soluções socialistas estão longe de serem projetos socioeconômicos de fato bem articulados e eficazes e, principalmente, livres de corrupção. Entretanto, elas são as únicas alternativas para toda uma parte do mundo que tende, cada vez mais, a servir apenas como meio de sustentação a outra parte deste mundo, esta última sim, com projetos bem articulados. Bem articulados, mas sustentados exatamente pela derrocada de grande parte da humanidade, parte essa que corresponde, por sua vez, à sustentação da base eleitoral das esquerdas na América Latina, por exemplo.

Claro, nada do que estou falando é novidade e também não é o foco da presente abordagem. O objeto para que quero chamar a atenção é que a ascensão da esquerda na América Latina é uma tendência e não uma fase ou uma "onda" como muitos gostariam que fosse. Iludem-se aqueles que pensam que é possível permanecer nos antigos moldes de sustentação econômica dos padrões da centro-direita brasileira, ouça-se, PSDB e seus aliados. O PT, como já discuti em outros artigos, jamais sequer chegou perto de ser o partido que mais roubou neste país. Ao contrário, ele apenas seguiu o molde de corrupção antes praticado por outros partidos, mais especificamente o PSDB, de quem herdou o Mensalão e o Petrolão. É óbvio que os meios atuais de comunicação, fruto da herança dos governos de centro-direita, dissemina uma ideia diversa, mas aqui estou considerando esse fato como conhecido. Entretanto não nego que o volume de desvio de recursos públicos para formação da base de sustentação dos governos do PT, não fugindo à regra dos governos anteriores, foi assustador - apenas com a diferença de ter sido reduzido, entre outras coisas, pela atuação das instituições que, neste caso, estiveram sujeitas a uma menor intervenção por parte do Governo.

Mas o que salta aos olhos no momento atual é que a crise política tende a se agravar depois da investida da direita contra o governo do PT - especialmente depois da saída deste último do poder. Como estava dizendo, a ascensão da esquerda é uma tendência, fruto da insustentabilidade do esquema de subjugação das classes menos favorecidas. A esquerda - felizmente ou infelizmente, não estou julgando esse mérito - é, neste momento, o único meio de consumar definitivamente o rompimento do processo de exclusão das classes menos favorecidas do processo econômico. E o processo econômico, por sua vez, não pode mais prescindir da participação dessas classes.

Portanto, prezados leitores, não vai ser prendendo Lula, Palocci, Mantega, Dilma ou quem quer que seja que se vai reverter essa tendência. Como dizia Raul Seixas: “cê mata uma e vem outra em meu lugar”. Especialmente: não vai ser Michel Temer que vai afastar a esquerda do poder no Brasil. Até porque parece que tem gente “do outro lado” que também não está gostando...
Mais... http://www.conversaafiada.com.br/pig/essa-porra-desse-governo