Redes Sociais e Celulares
Tecnologia
Dizer
que a tecnologia é culpada pela lavagem cerebral e pela ignorância que assolam
as massas é o mesmo que dizer que a canabis sativa é a responsável pelo vício dos
viciados em maconha. É inverter a relação de causalidade, tirando da forma como
é usada o ônus pelas consequências de seu mau uso. Se eu pegar meu carro agora
e esgoelá-lo a 200 por hora na estrada até que um acidente aconteça, a culpa
certamente não será do fabricante.
O que
vemos acontecer com os usuários de celulares e redes sociais não é consequência
da tecnologia que lhes é colocada ao dispor e sim uma imensa carência de
valores primordiais nas mentes desses usuários que lhes faça desviar a atenção
de seus aparelhos quando necessário. São escolhas: por que não parar de olhar
para o telefone na hora que alguém está falando com você? Por que ligar o
telefone (no Facebook, não no boleto) enquanto usa o caixa eletrônico?
Gostava muito de contar uma piada
em que um certo cidadão estava a passear pelo shopping quando via um amigo guru
diante de um aquário. Ele perguntava ao amigo: “o que está fazendo?” O amigo
respondia: “mente forte domina mente fraca. Veja:” Nessa hora o amigo fazia um
movimento para cima e o peixe, do outro lado do aquário subia. Em seguida ele
fazia um movimento para o lado e o peixe acompanhava. Minutos depois, o amigo
guru, após dar uma volta, avistava seu discípulo, ainda à frente do aquário.
Ele olhava fixamente para o peixe, abrindo e fechando a boca. Mente forte
domina mente fraca.
A dita
inteligência artificial, para quem trabalha com ela, é uma forma de
adaptabilidade. Uma evolução dos recursos computacionais que permite que um
programa gere um novo programa, de forma que o programa original se torne mais
eficaz e mais possante. Quem leu ou viu Eu Robô sabe do que estou falando.
Entretanto, o Eu Robô, como boa obra de ficção, sugere que os tais robôs
desenvolveriam algo como uma vontade própria, ou seja, a partir de determinado
ponto, eles não mais seriam comandados pelos humanos. Acho a obra genial, tanto
no livro quanto no filme. Entretanto, me parece que quem vislumbra estarmos
caminhando para uma situação similar entende tão pouco de inteligência
artificial quanto de inteligência humana. Como legítima obra feita pelo homem,
um conjunto de computadores (mesmo que seja o conjunto de computadores do
Google) caminha exatamente para onde ele foi programado e todo o algoritmo por ele
gerado corrobora exatamente com o alvo inicial concebido – incluindo,
naturalmente, as falhas e omissões. Aliás, estas falhas podem até vir a ser
nossa salvação!
Ao
homem, ao contrário do que este concebe em suas obras, foi concebida a vontade
própria. Muito diferente de uma simples capacidade de se auto recriar, o homem
tem como hábito refazer sua própria programação, tendo alvos muitas vezes
distintos daqueles a que inicialmente se propôs. Assim é que, ao tempo que é capaz
de fazer obras fantásticas, também é capaz de negar seu próprio conhecimento e
fazer proliferar teorias completamente sem fundamento, apenas para satisfazer a
seus desejos.
Mentiras
Acreditar
que a terra é plana, depois de toda a evolução científica, com todas as
equações e provas de laboratório, pode parecer algo terrível – e realmente o é.
O budismo acredita que a ignorância seja o pior mal que pode se acometer a um
ser humano, sendo que o esse tipo de ignorância – a ignorância ativa, em que o
detentor não só desconhece a verdade como passa a acreditar e dissemina uma
realidade por ele criada – é o pior possível, abominável.
Possuir
posicionamentos políticos contraditórios não é necessariamente algo
indesejável. Defender causas opostas, nem tampouco. Já desqualificar seu
adversário tomando como base notícias falsas, pode ser catastrófico. E aqui
voltamos àquela questão dos valores primordiais: nesse caso, são valores
cristãos. Não é atoa que luxúria e preguiça são considerados pecados: eles
servem para a formação de opiniões de massa calcadas na ignorância ativa. Como eu
dizia, abominável.
O
conteúdo publicado na internet, por algum motivo, raramente é questionado como
deveria. Alguém que se filma contando uma baita lorota sobre qualquer coisa no
Youtube é imediatamente tido como digno de atenção, sabe Deus por quê. E o
interessante é que os vídeos, posts ou seja lá o que for mais divulgados
raramente são os menos mentirosos, mas sim os que mais agradam, ainda que nada
tenham de humorísticos ou que, se forem piadas, ainda assim venham a caluniar e
difamar.
Pior
que isso, só quando isso é fomentado e sustentado por instituições legais,
redes de comunicação e redes sociais. Quando é uma combinação disso tudo...
Algoritmos
Antes
de existir Facebook existia Rede Globo. E muito antes de a Rede Globo apoiar um
movimento jurídico que derrubou um presidente, ou quando, há mais tempo, apoiou
a eleição de outro presidente, eu já dizia que não se podia culpar um meio de
comunicação pela ocorrência um fenômeno de crença sócio-política. Ou seja,
sempre ficou patente que o “algoritmo” da Rede Globo foi criado para atender a
uma série de vontades dos expectadores. Da mesma forma, o algoritmo do Facebook
serve para atender às vontades dos membros: as amizades sugestionadas serão as
mais prováveis de serem aceitas, assim como as propagandas e outras formas de
ofertas do site.
Certo.
Não, não se trata de ingenuidade. Este é o protocolo padrão. Ele é real e
incontestável. Mas não é natural. Por exemplo, é claro que queremos que os
primeiros resultados de uma pesquisa do Google sejam relacionados aos assuntos que
nos interessam, mas isso não quer dizer que aprovemos que, entre esses
primeiros resultados, sejam inseridos links para sites cujo conteúdo não seja
propriamente relevante, mas que tenha sido lá colocado oportunisticamente como
forma de reciprocidade entre o Google e um cliente seu.
A coisa
pode ir mais longe: já está acontecendo de recebermos telefonemas de ofertas de
produtos em que o vendedor tem a ousadia de dizer que está oferecendo o tal
produto em função de nossas preferências de sites visitados e outros hábitos da
internet. Deve ter gente que aceita. Talvez nem todos os indivíduos sejam como
eu – eu, ao ouvir isso, naturalmente me despeço e agradeço. Conforme meu humor,
processo o ofertante por invasão de privacidade.
Voyerismo
Eu sou
meio paranoico com envio de informações pela rede. Só que às vezes ajo de forma
invertida. Por exemplo, nas minhas configurações de conta do Google, habilito
todas as opções de registro: registro de histórico, registro de lugares, e por
aí vai. Minha teoria é a de que se eu desabilitar, as informações serão salvas
da mesma forma, mas serão ocultadas de mim mesmo, então prefiro ver.
E
também sou meio avesso a ficar postando selfies, assim como o que faço e como faço.
Mas, certo ou errado, meu perfil não é o padrão mais encontrado. O comum, ao
que me parece, é postar sempre e ficar esperando ansiosamente curtidas e
comentários. A meu ver, isso pode ter relação com o hábito de bisbilhotar a
vida alheia – veja-se o grande ibope que os BBB e demais reality shows tem.
Problema
maior pode ser endeusar o que o outro pensa a seu respeito, principalmente
quando esse pensamento tem o potencial de se multiplicar aos milhões. A esse
respeito, vários filmes foram feitos, mas, de maneira geral, o que de pior pode
acontecer depois de se expor uma pobre alma à Rede é a morte. Suicídio.
Mas,
calma, não sou tão careta assim. Afinal, as redes têm sua razão de ser e talvez
a mais importante seja a comunicação entre membros. Dentro dessa perspectiva,
faz todo sentido enviar fotos, áudios e links. Aliás, links, a meu ver, em
alguns casos deveriam ser obrigatórios: copiar e colar, além de crime tira a
chance de estudar e validar a origem do que se posta!
O reinado informático
Uma vez
um falecido amigo meu me chamou a atenção de como a nova geração de crianças e
pré-adolescentes se comporta diante de um computador. São verdadeiros reizinhos
em seus universos computacionais, monarcas poderosos com seus exércitos de Pokemons
em suas terras virtuais, contra seus inimigos, cuja vitória é sempre
temporária, garantindo o retorno do rei ao poder.
Tire
dessa criança o computador ou o celular e verá o que é um ser revoltado. E para
quem acha que é o mesmo que tirar uma bicicleta de uma criança do passado, eu
digo: não! Definitivamente não, não é. Por mais que nosso ciclista fosse
poderoso com sua bicicleta, ele não se tornaria absolutamente inoperante sem
ela.
Isso é
algo realmente podre. Ainda que um ser humano não deixe de ser um ser humano
por se subjugar a um celular, ele definitivamente se torna menos interessante.
Muito menos interessante.
As redes que somem
Quando
o Twitter surgiu já havia Orkut e Facebook. O Orkut e o Facebook tinham mais
recurso, era mais “navegável”, digamos, mas, mesmo assim, o Twitter emplacou. O
que se dizia na época é que emplacou por ser minimalista e imediato, com grande
abrangência. Há controvérsias. Bom, está aí até hoje. Sofreu melhoras, mas as
controvérsias persistem.
Com o
crescimento do Facebook, o Orkut foi minguando até sumir. Mas no Brasil ele cresceu
mais e persistiu por um bom tempo. Nunca ouvi explicação plausível.
Mais
recentemente, outra rede, o Instagram, vem crescendo vertiginosamente e
ocupando uma liderança que antes era do Facebook. Isso é realmente muito
interessante, porque o Instagram não oferece 1/10 dos recursos que o Fecebook
oferece e, além disso, o Facebook comprou o Instagram, portanto se havia uma
razão institucional esta não existe mais. Além disso, o Instagram não permite
publicar links o que, a meu ver, além de comprometer a legitimidade e os
direitos autorais dos posts, inibe a verificação de veracidade, o que considero
terrível.
O
Facebook, além disso, não obstante as acusações de ser tendencioso e censurar
somente o que não lhe interessa, permite ao usuário filtrar o conteúdo de forma
muito mais eficiente que o Instagram, além de trabalhar com conteúdo rico
(texto formatado, imagem, multimídia, hiperlink, etc.). Porque uma rede tão
ruim como o Instagram faz sucesso?
Esses
fenômenos da Internet para mim ainda são mistérios e talvez tão nocivos quantos
as próprias Fake News. Esse comportamento tendencioso facilita o surgimento e a
penetração de grupos de interesses espúrios.
As
redes de comunicação, por outro lado, também carregam feitiçarias
inexplicáveis: por que uma rede fechada, como o WhatsApp, cujo acesso direto a
partir de um servidor Web não existe e depende de um telefone para funcionar,
persiste com a maior parte dos usuários, ao passo que uma rede aberta, como o
Telegram, que oferece serviços Web legítimos, independentes de dispositivos
móveis, ainda não é tão usada? Ainda que a comunicação multimídia em tempo real
seja mais eficaz no WhatsApp, se o Telegram fosse adotado seria questão de dias
para a melhor tecnologia se incorporar.
Pra
completar a maluquice, vem os terríveis grupos de WhatsApp. Por que não
transformá-los em uma rede social e assim deixar o aplicativo só para
comunicação direta? Podem me chamar de ranzinza, mas grupo de WhatsApp para mim
é o que eu chamo “panelilha”. Desde que me entendo por gente isso pra mim não
pode ser coisa boa.
A sobrepujança da história
Finalmente,
aqui estamos nós, depois de mais de uma década e meia de smartphones e redes
sociais.
Eis que
a história é vencida. Eis que, depois de passar por regimes escravocratas,
ditaduras, torturas e um sofrido processo de redemocratização, aqui estamos
nós, diante de uma campanha retrógrada, ufanista.
Eis que
o Grande Irmão vence, as companhias ligam dizendo o que devemos comer e beber, nosso
dito líder diz que remédios devemos tomar, o que é doença e o que não é,
determina quais as bocas devem ser caladas, o que acontece e o que não
acontece. A história está sendo reescrita, não por quem entende e conhece, mas
por quem pode e manda.
E eis
que democracia não é mais desejada, igualdade vai sendo substituída por uma
certa “meritocracia” e os valores que contam, sob a égide de um dito
liberalismo, são aqueles que garantem a sobrevivência do status quo, ainda que
enseje o retorno de um sistema falido.
Eis que
o estado perde a função de proteger o cidadão, o mais fraco, o explorado e
passa a assumir a função de, ao contrário, garantir que esse cidadão interfira
nos interesses de quem manda.
Precisamos
mesmo desse estado? A impressão que dá é que, de fato, o que ele conquista é
sua própria ruina, em prol de outro ou de outros mais poderosos. Por outro
lado, precisamos, sim, de um estado que regulamente a atuação social das empresas,
cidadãos e instituições, impedindo o chamado abuso de poder. Quando o teremos
de volta?

