19.9.20

Redes Sociais e Celulares

 

Tecnologia

                Dizer que a tecnologia é culpada pela lavagem cerebral e pela ignorância que assolam as massas é o mesmo que dizer que a canabis sativa é a responsável pelo vício dos viciados em maconha. É inverter a relação de causalidade, tirando da forma como é usada o ônus pelas consequências de seu mau uso. Se eu pegar meu carro agora e esgoelá-lo a 200 por hora na estrada até que um acidente aconteça, a culpa certamente não será do fabricante.

                O que vemos acontecer com os usuários de celulares e redes sociais não é consequência da tecnologia que lhes é colocada ao dispor e sim uma imensa carência de valores primordiais nas mentes desses usuários que lhes faça desviar a atenção de seus aparelhos quando necessário. São escolhas: por que não parar de olhar para o telefone na hora que alguém está falando com você? Por que ligar o telefone (no Facebook, não no boleto) enquanto usa o caixa eletrônico?

                Gostava muito de contar uma piada em que um certo cidadão estava a passear pelo shopping quando via um amigo guru diante de um aquário. Ele perguntava ao amigo: “o que está fazendo?” O amigo respondia: “mente forte domina mente fraca. Veja:” Nessa hora o amigo fazia um movimento para cima e o peixe, do outro lado do aquário subia. Em seguida ele fazia um movimento para o lado e o peixe acompanhava. Minutos depois, o amigo guru, após dar uma volta, avistava seu discípulo, ainda à frente do aquário. Ele olhava fixamente para o peixe, abrindo e fechando a boca. Mente forte domina mente fraca.

                A dita inteligência artificial, para quem trabalha com ela, é uma forma de adaptabilidade. Uma evolução dos recursos computacionais que permite que um programa gere um novo programa, de forma que o programa original se torne mais eficaz e mais possante. Quem leu ou viu Eu Robô sabe do que estou falando. Entretanto, o Eu Robô, como boa obra de ficção, sugere que os tais robôs desenvolveriam algo como uma vontade própria, ou seja, a partir de determinado ponto, eles não mais seriam comandados pelos humanos. Acho a obra genial, tanto no livro quanto no filme. Entretanto, me parece que quem vislumbra estarmos caminhando para uma situação similar entende tão pouco de inteligência artificial quanto de inteligência humana. Como legítima obra feita pelo homem, um conjunto de computadores (mesmo que seja o conjunto de computadores do Google) caminha exatamente para onde ele foi programado e todo o algoritmo por ele gerado corrobora exatamente com o alvo inicial concebido – incluindo, naturalmente, as falhas e omissões. Aliás, estas falhas podem até vir a ser nossa salvação!

                Ao homem, ao contrário do que este concebe em suas obras, foi concebida a vontade própria. Muito diferente de uma simples capacidade de se auto recriar, o homem tem como hábito refazer sua própria programação, tendo alvos muitas vezes distintos daqueles a que inicialmente se propôs. Assim é que, ao tempo que é capaz de fazer obras fantásticas, também é capaz de negar seu próprio conhecimento e fazer proliferar teorias completamente sem fundamento, apenas para satisfazer a seus desejos.

 

Mentiras

                Acreditar que a terra é plana, depois de toda a evolução científica, com todas as equações e provas de laboratório, pode parecer algo terrível – e realmente o é. O budismo acredita que a ignorância seja o pior mal que pode se acometer a um ser humano, sendo que o esse tipo de ignorância – a ignorância ativa, em que o detentor não só desconhece a verdade como passa a acreditar e dissemina uma realidade por ele criada – é o pior possível, abominável.

                Possuir posicionamentos políticos contraditórios não é necessariamente algo indesejável. Defender causas opostas, nem tampouco. Já desqualificar seu adversário tomando como base notícias falsas, pode ser catastrófico. E aqui voltamos àquela questão dos valores primordiais: nesse caso, são valores cristãos. Não é atoa que luxúria e preguiça são considerados pecados: eles servem para a formação de opiniões de massa calcadas na ignorância ativa. Como eu dizia, abominável.

                O conteúdo publicado na internet, por algum motivo, raramente é questionado como deveria. Alguém que se filma contando uma baita lorota sobre qualquer coisa no Youtube é imediatamente tido como digno de atenção, sabe Deus por quê. E o interessante é que os vídeos, posts ou seja lá o que for mais divulgados raramente são os menos mentirosos, mas sim os que mais agradam, ainda que nada tenham de humorísticos ou que, se forem piadas, ainda assim venham a caluniar e difamar.

                Pior que isso, só quando isso é fomentado e sustentado por instituições legais, redes de comunicação e redes sociais. Quando é uma combinação disso tudo...

Algoritmos

                Antes de existir Facebook existia Rede Globo. E muito antes de a Rede Globo apoiar um movimento jurídico que derrubou um presidente, ou quando, há mais tempo, apoiou a eleição de outro presidente, eu já dizia que não se podia culpar um meio de comunicação pela ocorrência um fenômeno de crença sócio-política. Ou seja, sempre ficou patente que o “algoritmo” da Rede Globo foi criado para atender a uma série de vontades dos expectadores. Da mesma forma, o algoritmo do Facebook serve para atender às vontades dos membros: as amizades sugestionadas serão as mais prováveis de serem aceitas, assim como as propagandas e outras formas de ofertas do site.

                Certo. Não, não se trata de ingenuidade. Este é o protocolo padrão. Ele é real e incontestável. Mas não é natural. Por exemplo, é claro que queremos que os primeiros resultados de uma pesquisa do Google sejam relacionados aos assuntos que nos interessam, mas isso não quer dizer que aprovemos que, entre esses primeiros resultados, sejam inseridos links para sites cujo conteúdo não seja propriamente relevante, mas que tenha sido lá colocado oportunisticamente como forma de reciprocidade entre o Google e um cliente seu.

                A coisa pode ir mais longe: já está acontecendo de recebermos telefonemas de ofertas de produtos em que o vendedor tem a ousadia de dizer que está oferecendo o tal produto em função de nossas preferências de sites visitados e outros hábitos da internet. Deve ter gente que aceita. Talvez nem todos os indivíduos sejam como eu – eu, ao ouvir isso, naturalmente me despeço e agradeço. Conforme meu humor, processo o ofertante por invasão de privacidade.

Voyerismo

                Eu sou meio paranoico com envio de informações pela rede. Só que às vezes ajo de forma invertida. Por exemplo, nas minhas configurações de conta do Google, habilito todas as opções de registro: registro de histórico, registro de lugares, e por aí vai. Minha teoria é a de que se eu desabilitar, as informações serão salvas da mesma forma, mas serão ocultadas de mim mesmo, então prefiro ver.

                E também sou meio avesso a ficar postando selfies, assim como o que faço e como faço. Mas, certo ou errado, meu perfil não é o padrão mais encontrado. O comum, ao que me parece, é postar sempre e ficar esperando ansiosamente curtidas e comentários. A meu ver, isso pode ter relação com o hábito de bisbilhotar a vida alheia – veja-se o grande ibope que os BBB e demais reality shows tem.

                Problema maior pode ser endeusar o que o outro pensa a seu respeito, principalmente quando esse pensamento tem o potencial de se multiplicar aos milhões. A esse respeito, vários filmes foram feitos, mas, de maneira geral, o que de pior pode acontecer depois de se expor uma pobre alma à Rede é a morte. Suicídio.

                Mas, calma, não sou tão careta assim. Afinal, as redes têm sua razão de ser e talvez a mais importante seja a comunicação entre membros. Dentro dessa perspectiva, faz todo sentido enviar fotos, áudios e links. Aliás, links, a meu ver, em alguns casos deveriam ser obrigatórios: copiar e colar, além de crime tira a chance de estudar e validar a origem do que se posta!

O reinado informático

                Uma vez um falecido amigo meu me chamou a atenção de como a nova geração de crianças e pré-adolescentes se comporta diante de um computador. São verdadeiros reizinhos em seus universos computacionais, monarcas poderosos com seus exércitos de Pokemons em suas terras virtuais, contra seus inimigos, cuja vitória é sempre temporária, garantindo o retorno do rei ao poder.

                Tire dessa criança o computador ou o celular e verá o que é um ser revoltado. E para quem acha que é o mesmo que tirar uma bicicleta de uma criança do passado, eu digo: não! Definitivamente não, não é. Por mais que nosso ciclista fosse poderoso com sua bicicleta, ele não se tornaria absolutamente inoperante sem ela.

                Isso é algo realmente podre. Ainda que um ser humano não deixe de ser um ser humano por se subjugar a um celular, ele definitivamente se torna menos interessante. Muito menos interessante.

As redes que somem

                Quando o Twitter surgiu já havia Orkut e Facebook. O Orkut e o Facebook tinham mais recurso, era mais “navegável”, digamos, mas, mesmo assim, o Twitter emplacou. O que se dizia na época é que emplacou por ser minimalista e imediato, com grande abrangência. Há controvérsias. Bom, está aí até hoje. Sofreu melhoras, mas as controvérsias persistem.

                Com o crescimento do Facebook, o Orkut foi minguando até sumir. Mas no Brasil ele cresceu mais e persistiu por um bom tempo. Nunca ouvi explicação plausível.

                Mais recentemente, outra rede, o Instagram, vem crescendo vertiginosamente e ocupando uma liderança que antes era do Facebook. Isso é realmente muito interessante, porque o Instagram não oferece 1/10 dos recursos que o Fecebook oferece e, além disso, o Facebook comprou o Instagram, portanto se havia uma razão institucional esta não existe mais. Além disso, o Instagram não permite publicar links o que, a meu ver, além de comprometer a legitimidade e os direitos autorais dos posts, inibe a verificação de veracidade, o que considero terrível.

                O Facebook, além disso, não obstante as acusações de ser tendencioso e censurar somente o que não lhe interessa, permite ao usuário filtrar o conteúdo de forma muito mais eficiente que o Instagram, além de trabalhar com conteúdo rico (texto formatado, imagem, multimídia, hiperlink, etc.). Porque uma rede tão ruim como o Instagram faz sucesso?

                Esses fenômenos da Internet para mim ainda são mistérios e talvez tão nocivos quantos as próprias Fake News. Esse comportamento tendencioso facilita o surgimento e a penetração de grupos de interesses espúrios.

                As redes de comunicação, por outro lado, também carregam feitiçarias inexplicáveis: por que uma rede fechada, como o WhatsApp, cujo acesso direto a partir de um servidor Web não existe e depende de um telefone para funcionar, persiste com a maior parte dos usuários, ao passo que uma rede aberta, como o Telegram, que oferece serviços Web legítimos, independentes de dispositivos móveis, ainda não é tão usada? Ainda que a comunicação multimídia em tempo real seja mais eficaz no WhatsApp, se o Telegram fosse adotado seria questão de dias para a melhor tecnologia se incorporar.

                Pra completar a maluquice, vem os terríveis grupos de WhatsApp. Por que não transformá-los em uma rede social e assim deixar o aplicativo só para comunicação direta? Podem me chamar de ranzinza, mas grupo de WhatsApp para mim é o que eu chamo “panelilha”. Desde que me entendo por gente isso pra mim não pode ser coisa boa.

A sobrepujança da história

                Finalmente, aqui estamos nós, depois de mais de uma década e meia de smartphones e redes sociais.

                Eis que a história é vencida. Eis que, depois de passar por regimes escravocratas, ditaduras, torturas e um sofrido processo de redemocratização, aqui estamos nós, diante de uma campanha retrógrada, ufanista.

                Eis que o Grande Irmão vence, as companhias ligam dizendo o que devemos comer e beber, nosso dito líder diz que remédios devemos tomar, o que é doença e o que não é, determina quais as bocas devem ser caladas, o que acontece e o que não acontece. A história está sendo reescrita, não por quem entende e conhece, mas por quem pode e manda.

                E eis que democracia não é mais desejada, igualdade vai sendo substituída por uma certa “meritocracia” e os valores que contam, sob a égide de um dito liberalismo, são aqueles que garantem a sobrevivência do status quo, ainda que enseje o retorno de um sistema falido.

                Eis que o estado perde a função de proteger o cidadão, o mais fraco, o explorado e passa a assumir a função de, ao contrário, garantir que esse cidadão interfira nos interesses de quem manda.

                Precisamos mesmo desse estado? A impressão que dá é que, de fato, o que ele conquista é sua própria ruina, em prol de outro ou de outros mais poderosos. Por outro lado, precisamos, sim, de um estado que regulamente a atuação social das empresas, cidadãos e instituições, impedindo o chamado abuso de poder. Quando o teremos de volta?