PT, Petrolão e o Pesadelo da Classe Média-alta
Reeleita Dilma Rousseff para a Presidência da República, vem-nos a pergunta: será que 50% da população brasileira é conivente com a corrupção? De antemão respondo a essa pergunta com um não. E não se trata de os eleitores de Dilma não reconhecerem a roubalheira do Petrolão, assim como do Mensalão nem serem condescendentes com isso. Não é fácil para o eleitor colocar na balança dois tipos de corrupção e terem que decidir entre um deles mas, nesse caso, teve que ser assim: ou convivia-se com o envolvimento de políticos em um sistema corrupto ou trazia-se de volta políticos ainda mais corruptos que, no passado, fomentaram esquemas de desvios ainda piores e, pior, tiraram de parte da população as chances de sair de sua condição de miséria.
Entretanto, a coisa não é simples assim: passadas as eleições, resta acalmar os ânimos da parte "perdedora" do eleitorado. Acontece que os eleitores da oposição ficaram amedrontados com a reeleição de Dilma Rousseff. Não é completamente óbvia a origem desse medo: é necessário um certo teor de investigação para melhor compreendê-lo. O fato é que, do medo gerou-se o ódio, num processo que, aliás, vem tomando corpo desde a primeira eleição de Lula, em 2002. O processo pelo qual o medo transforma-se em ódio é muito bem ilustrado com cenas das eleições de 2014, parodiadas com a fala de Slavoj Žižek ( https://www.youtube.com/watch?v=3Nc7wAQ05QY ).
Faz-se muita referência hoje às manifestações ocorridas em 2013. Na minha humilde opinião, apesar de reconhecer que essas manifestações serviram para mostrar como a Internet pode ser usada para constituir e fortalecer movimentos de massa, acredito que esse movimento politicamente foi muito fraco. Isso porque ele era formado por vários grupos, cada um reivindicando um objeto diferente e sem nenhuma liderança política envolvida. Entretanto, uma coisa é fato: eles serviram para revelar alguns submovimentos paralelos que andam rondando vulnerabilidades em nossa sociedade. Um deles certamente foi o dos Black Blocs ( http://educacao.uol.com.br/noticias/2013/10/07/black-blocs-tomam-e-vandalizam-pelo-menos-cinco-onibus-no-rio.htm ). Outro, que veio a manifestar-se mais à frente, após as eleições de 2014, foi o dos "órfãos da revolução". Essa aglomeração vem, em última instância, a fomentar o movimento pelo impeachment de Dilma Rousseff. A característica preponderante desse movimento é sua tendência reacionária, como fica claro nessa reportagem de novembro de 2014 https://br.noticias.yahoo.com/blogs/laura-capriglione/quem-sao-os-bandidos-que-batem-em-jornalistas-enquanto-222941249.html .
Corrupção
Em meu blog anterior, http://rodgf.blogspot.com.br/2014/10/por-que-eu-nao-voto-no-psdb.html , tentei abordar o quanto a disseminação do conhecido Mensalão feita pela imprensa é parcial e tendenciosa. Agora temos, diante de nós, o já conhecido Petrolão, onde são referenciados os cartéis criados entre os dirigentes da Petrobrás e os das empreeiteiras fornecedoras da Petrobrás. As semelhanças entre os dois esquemas é profunda:
- São frutos de um sistema político em que os cargos do primeiro, segundo e terceiro escalões do Governo é assumido pela base aliada desse Governo em troca de favores políticos;
- Têm seu mecanismo definido há décadas, provavelmente com origem nos governos militares ou nos imediatamente subsequentes;
- São sustentados pelos partidos políticos, tanto de governo como de oposição, com o foco nas campanhas eleitorais e no orçamento público;
- Além dos partidos políticos, têm sua origem de sustentação em grandes grupos investidores - os mesmos grupos que, ao serem descobertos os esquemas, trabalham publicamente para sua destruição.
A esse respeito, inclusive, há uma grande controvérsia: supondo que os grupos de investidores que publicamente se posicionam contra os cartéis tinham, como um todo, nesses cartéis uma de suas mais importantes fontes de renda, qual seria, para eles, a consequência da destruição desses mesmos cartéis? Controvérsias à parte, somente uma troca de poder daria a esses grupos a chance de retomarem a fonte de renda perdida.
A corrupção não é admissível, a meu ver, em nenhum contexto. Cabe a nós, entretanto, avaliarmos o que se diz da corrupção e por que motivo. Na véspera do 2º turno da eleição de 2014, todos devem se lembrar, a revista Veja publicou uma reportagem de capa onde um delator do Petrolão dizia que a então candidata Dilma teria conhecimento do esquema dos cartéis. Não obstante a possível veracidade da afirmação, a publicação de um artigo dessa natureza, sem provas ou sequer indícios concretos do real envolvimento da candidata com o esquema demonstra a tendenciosidade e a não confiabilidade de certos meios de comunicação. Mais recentemente, o blog de Luiz Nassif, ex-folha e atual comentarista da Band, indicou uma manipulação vergonhosa de noticiário da Globo ( http://www.tribunahoje.com/noticia/131721/politica/2015/02/11/globo-blinda-fhc-no-noticiario-da-lava-jato.html ). Esse é apenas um exemplo de como a imprensa vem manipulando a opinião pública no Brasil. E ainda em fevereiro de 2015 outra tentativa de manipulação dos fatos pela revista Veja ( http://vejabrasil.abril.com.br/brasilia/materia/nota-de-esclarecimento-ao-leitor-4344 ).
Outro aspecto sórdido do combate à corrupção é a utilização das instituições públicas para autopromoção política. O julgamento dos envolvidos no Mensalão foi um ato inédito, onde foram punidos ex-ocupantes de alto escalão, julgados, condenados e presos, como nunca antes havia sido feito neste país. Entretanto, atitudes abitrárias foram tomadas para adquirir o apoio da população e o crescimento político pessoal ( http://www.cartamaior.com.br/?/Editoria/Politica/Joaquim-Barbosa-e-Antonio-Fernando-de-Souza-esconderam-provas-que-poderiam-mudar-julgamento-do-'mensalao'%0d%0a/4/28145 ). Prisões foram feitas de forma teatral para chamar a atenção da mídia ( http://www.tribunahoje.com/noticia/131547/politica/2015/02/10/no-brasil-exceco-virou-regra-prende-se-para-depois-apurar.html ).
Resumindo, tanto o Mensalão quanto o Petrolão devem ser combatidos, mas combatamos o mal pela raiz e lutemos contra nossos verdadeiros inimigos.
A Economia de Dilma
Parece haver quase uma unanimidade quanto ao Governo ser o causador da crise econômica por que estamos passando. Entretanto, fato curioso: tente pesquisar pela Internet as falhas nas decisões econômicas do Governo nos últimos anos. Você vai encontrar:
- Falta de investimentos: teria sido uma das causas do parco crescimento econômico do último ano. Entretanto o período que precedeu este último ano é farto em obras do governo e incentivos fiscais;
- Excesso de gastos públicos: seria o contrário da questão anterior, ou seja, nesse caso o Governo teria errado por ter investido mais do que deveria ou por ter gasto mal o dinheiro público. De fato, consta que a metade das obras do PAC não foram inauguradas no tempo previsto. Mas os gastos do governo não aumentaram significativamente em relação aos anos anteriores e de forma alguma em proporção que justificasse, por si um período de recessão;
- PAC e Copa do Mundo: de novo, os gastos públicos. De novo, não há mudanças significativas em relação aos anos anteriores ( http://auditar.org.br/web/?h_pg=noticias&bin=read&id=2007 );
- Incentivos Fiscais: critica-se o Governo por ter feito incentivos fiscais. Também critica-se o Governo pelo contrário. A esse respeito, vou abrir um parêntese: não é a primeira vez que o Brasil usa esse artifício para sair de uma crise. Em 1930, para evitar a queda do preço do café e o consequente desemprego, o brasil comprou e queimou boa parte do estoque produzido de café, como se sabe. Aliás, isso é Keynes - veja-se "enterrar garrafas". Essa medida teria alcançado sucesso, não fossem as eleições de 2014. Para pressionar a saída do governo, pelos motivos que discuto a seguir, parte dos investidores brasileiros decidiu reduzir suas aplicações. Isso é facilmente verificável acompanhando-se as oscilações da Bolsa de Valores. O próprio Petrolão foi usado como justificativa para a redução na compra de títulos da Bolsa, redução esta em parte justificável pela perspectiva de queda das ações da Petrobrás, em parte sem maiores justificativas;
- Juros altos e inflação: coloquei esses dois itens juntos de propósito, pois os juros altos são usados para combater a inflação. Essa ortodoxia e é herança do governo Itamar. Plano Real, certo? Aliás, em economia, existe uma famosa curva da qual não há como fugir: a hipérbole inflação-recessão. Usada por Fernando Henrique Cardoso, inclusive.
Entre as medidas a serem tomadas para compensar erros enquadrados nos itens acima, está o contingenciamento fiscal. Essa medida está sendo tomada desde o início do presente mandato e já conseguiu fazer com que as contas do Governo se revertessem e apresentassem resultado positivo no mês de janeiro. Entretanto, não estão tendo o apoio da população, que não aceita os aumentos nas contas de energia, nos preços dos combustíveis, no imposto de renda e outros.
Impeachment
Mas algo incomoda a classe média-alta, profundamente. Se a recessão é causada, entre outras coisas, pela própria redução no investimento, em boa parte proveniente da referida classe média-alta, por que essa mesma classe média-alta não refaz seus ditames e favorece ao Governo, novamente, os meios de governabilidade como favoreceu, por exemplo, a Lula, após o Mensalão, para que ele reerguesse a economia?
A classe média-alta não acreditava que o PT fosse ficar no poder por mais 10 anos. Eles acreditavam que, depois do Mensalão, os esquemas de sustentação da base aliada do Governo iriam se enfraquecer e, portanto, o PT e sua base fossem minar e dar lugar, novamente, a um partido que atendesse mais direta e eficientemente a seus interesses: no caso, o PSDB. Quando ficou patente que isso não iria acontecer, primeiro nas eleições de 2006, depois nas de 2010 e finalmente nas de 2014, passou a justificar-se o que seria um tiro no próprio pé: melhor minar artificialmente a presente estrutura de Governo que correr o risco de ser excluído dessa mesma estrutura. Isso fica muito patente, hoje, quando se vêem os atritos entre o PMDB e o Executivo: é notório o desencontro causado pelo rompimento (de parte) dos cartéis.
Além disso, a ruptura dos cartéis tende a se perpetuar com operações como a Lava-jato e outras que podem vir. Empresas estão quebrando. A máquina estatal não apresenta mais tanto interesse para a classe média-alta. Mas o PT não apoiará privatizações. E as eleições já passaram. Que lhes resta fazer? - Impeachment.
Não há, de fato, como os próprios líderes do PSDB admitem, elementos necessários ao impeachment. Entretanto, o custo de reverter o sentimento de rancor plantado em parte da população a essa altura se tornou muito alto. Não se sabe o que mais deverá ser feito para restabelecer um sentimento de relativa tranquilidade, principalmente na classe média-alta - e aqui não estou mais falando em investidores. Os movimentos contrários tendem a aumentar. Agora é zelarmos pela democracia e não deixarmos o país cair novamente na mão de certo tipo de oportunistas.

