9.1.12

Se a Literatura é Fantástica, Mostre na Capa!

Alguém poderia dizer que ver o sobrenatural no cotidiano é apenas uma forma de olhar a realidade com outros olhos. Ou então que uma certa dose de exagero poderia servir para destacar certos aspectos bastante reais desse cotidiano. Nesse caso não seria um simples exagero, mas um certo grau de desvirtuação. Sem problemas.

Não importa. A Literatura Fantástica está aí para cumprir seu papel. Eu não tenho nada contra. Já li livros de vampiros e confesso que me diverti um bocado. Não vejo problema algum em darem-se asas à imaginação, seja voando pelo espaço sideral, seja tratando de seres imortais, seja apelando para a magia, enfim, tudo é válido se, ao final, uma mensagem bem cotidiana for passada e, de preferência, de uma forma artística e rica em experiências e criatividade.

O problema começa quando você está no aeroporto e resolve comprar um livro, assim, como quem não quer nada, apenas para se distrair um pouco. Você está com a cabeça cheia, não quer nada escrito por um membro da Academia Brasileira de Letras. Também não quer notícias, nada de literatura técnica, nada de aprimoramento profissional, quanto mais estudos sérios. E - por favor - auto-ajuda, não. Nada contra, mas digamos que esse não seja o espírito do momento.

Ou seja, você está procurando alguma coisa que faça o tempo passar. Poderia ser o seu IPad, mas você já tá meio de saco cheio de aparelhinhos e... enfim, você sai para procurar um best-seller. Sim, qual o problema? Ágatha Christie, Sidney Sheldon, Dan Brown... Vamos lá!

Pois é. O problema começa quando você pega um desses livros, senta na cadeira e procura se envolver com o romance; você quer entrar no mundo do autor - e qual o problema de ser Literatura Fantástica? Mas como seria servir-se de feijoada, dar a primeira garfada, sentir o gosto da feijoada e, ao dar a segunda ou terceira garfada, ainda com aquela vontade de comer feijoada, sentir um puta gosto de grosélia com quiabo!

Essa é a sensação que a gente sente quando começa a ler um livro que durante mais da metade omite se tratar de Literatura Fantástica e depois vai, gradativamente, aproveitando-se de que você já está envolvido com a história e sua curiosidade o tende a levar até o final, enfiando em você, goela abaixo, pequenas cenas fantásticas para, no final, terminar o livro com uma enorme panacéia catastrófica e sobrenatural. O fim do mundo e o paraíso ao mesmo tempo.

Portanto, fica aqui o meu apelo aos autores de best-seller: por favor, respeitem-nos, seus leitores. Sem prejuízo de sua criatividade: usem e abusem da Literatura Fantástica. Apenas tenham o cuidado de fazer o anjo cair na primeira página do livro. Ou um pouco adiante, mas não no fim do livro. Amém.