A crise vai só se aprofundando. Mas sem fatos novos. As acusações são as mesmas, e as mentiras, também. Acusa-se o governo de acobertar e tirar proveito de um sistema de remuneração a parlamentares – que, na acusação original seria mensal, agora não se sabe mais –, com base na denúncia de um cidadão que, se na época da denúncia pouco de concreto tinha a oferecer, agora nada tem, visto que, uma vez cassado, desapareceu.
Essa fantástica parceria entre a criação divina – um (quase) verdadeiro exemplar da espécie humana – e a criação humana – um espécime sem escrúpulo algum que, ao ver-se acusado, nada pode fazer a não ser caluniar; um ator de teatro capaz de denegrir imagens de pessoas de bem, em benefício próprio, ainda rindo, rebolando e citando Lupicínio Rodrigues, com a cara amassada e lesada, provavelmente pelo soco de um indignado e, é claro, pela ressaca do dia anterior; pois bem, essa maravilha das citadas naturezas serviu de muleta para toda uma corja de oportunistas, para que tentassem derrubar o governo.
Afinal, o que Roberto Jefferson denunciou?
De fato, é impressionante o alcance da lavagem de dinheiro da qual Jefferson participava. Os deputados beneficiários e os articuladores – Delúbio e Valério – tomaram posse de uma espécie de máfia eleitoral inigualável. Em todo o caso, a denúncia, em si, trata apenas da ponta de um iceberg.
Se não é lícito concluir pela fraude apenas por indícios, combater esta prática por esses mesmos indícios não o há de ser. Vejamos:
- Maurício Marinho relatou um esquema de corrupção nos Correios manipulado por um grupo de interesse direto na mesma fonte de benefícios de que ele desfrutava, qual seja, as aquisições da Estatal. Isso leva a crer que seu relato fosse sincero. Contudo, o esquema denunciado, conforme publicado na imprensa, teria sua origem na gestão do PSDB, a primeira a posicionar emissários dentro dos Correios;
- Acusado por Marinho, Jefferson, como forma de ganhar uma sobrevida, senão política, egocêntrica, decide delatar quem o ameaçaria e, naturalmente, o usaria como bode expiatório: o Governo Federal. Jefferson delata o esquema de financiamento de parlamentares, mas não como tal, pois isso desencadearia a investigação da origem do esquema (o resto do iceberg), e sim como um suposto sistema de compra de votos. Esse ponto é muito interessante, pois tudo se provou ter sido feito com o dinheiro obtido, exceto resultado de votações realizadas em plenário. Faz sentido, aliás, o desvio, pois se a oposição se sentisse ameaçada, Jefferson sairia, não como um herói, como pareceu sair, mas como um cadáver.
- Mesmo com a armação de Jefferson, o chamado valerioduto vazou, na imprensa, pro lado da oposição: veja-se Azeredo e Brant.
- O caso Brant não aturdia muito pois, além de ser menos expressivo, passou pelo crivo da Usiminas. Sendo a Usiminas um elemento neutro, acreditou-se poder atenuar as consequências da denúncia. Agora, entretanto, o caso está voltando à tona.
- O caso Azeredo ficou em banho-maria por um tempo. É tragicômico, mas parece que o PT, após tropeçar em seus próprios pés, ficou receoso de atacar de cara o caso (ou então, propositalmente, quis usar como barganha política). O fato é que, só recentemente, Azeredo foi chamado a depor e, diante de novas provas, teve que admitir o recebimento do dinheiro lavado. Azeredo teve que deixar a presidência do PSDB.
- Estranhamente, mesmo após a comprovação do caso Azeredo e sua saída da presidência do PSDB, o PT não indiciou Azeredo. Na verdade isso não soou tão estranho, uma vez que as primeiras denúncias contra o ministro Palocci também foram postas em banho-maria.
- Mas o PT começou a pressionar. Palocci estava se defendendo bem e algumas reportagens começaram a sair sobre o valerioduto tucano. Era preciso fazer algo.
- Osmar Serraglio, o grande relator da CPI, solta um miraculoso esquema de desvio de verbas do Banco do Brasil. O Jornal Nacional chegou a desenhar, na tela, um incrível fluxograma de depósitos, saques, aplicações e empréstimos bancários. Nada batia com nada, nem as datas, nem os valores, nem as versões, parte a parte. Mesmo assim, Serraglio arriscou a concluir que houve desvio de dinheiro público nas operações citadas.
- Lula vem à imprensa. Mantém-se à vontade ao falar sobre todos os assuntos e desafia os parlamentares a provarem algo contra José Dirceu.
- A CPI do Mensalão termina sem mensalão. Para não passar em branco, declara-se que houve repasse, mensal ou não. Anuncia-se isto com se fosse uma excepcional novidade.
- Serraglio ataca novamente, ameaçando (re)indiciar Dirceu, Genoino e Gushiken. Mesmos argumentos, mesmos “indícios”.
A esta altura Lula, pelas pesquisas, já não ganha mais a eleição. O povo engole (e a classe média-alta (pseudo)intelectualizada, se delicia). Daqui para lá, nem segundo turno haverá.
Perguntas que ficam:
1. Por que as CPIs não foram procurar as fontes de abastecimento do valerioduto nas gestões anteriores?
2. Por que tanta pressa de se divulgarem conclusões, mesmo com toda a evidência de que tudo se trata apenas de uma revelação, onde um esquema muito mais amplo e antigo se manifesta?
3. Por que tantas acusações contra José Dirceu e tão poucas contra Lula? Por que Jefferson, inicialmente, não acusou Lula e, posteriormente, tentou fazê-lo, mas não pôde?
4. Por que a oposição, mesmo sabendo que tem a oportunidade de investigar o que quiser (até Maluf foi preso, quem diria!) se restringe apenas ao suposto mensalão e divulga, aos quatro cantos, que esse é o maior escândalo de corrupção já ocorrido na história do Brasil (a não ser que eu esteja maluco, os danos mensais dos governos FHC eram da ordem de bilhões, ao passo que, juntando todos os ditos mensalões, suas consequências em termos de arrecadação e tudo o mais, não chegam a 100 milhões)?
Ficam aqui, pois essas perguntas que não querem calar... e que sejam respondidas antes que seja tarde!