25.3.06

Mamãe Senna

Há 25 anos moro em Brasília. Brasília me ensinou a desenvolver meus dotes artísticos, a apreciar o horizonte, ao longe, a expantir meu pensamento (inclusive para fora de Brasíla). Antes de me mudar para cá, pessoas haviam me dito sobre problemas da cidade, tais como distâncias, distâncias físicas e distâncias entre pessoas. Durante os primeiros anos aqui, tentei não me influenciar por essas opiniões e, de fato, descobri uma cidade criativa, viva, enfim, não havia, mesmo por que me ater aos problemas anteriormente relatados.
A partir de albuns anos - e ao longo dos últimos anos -, entretanto, o peso da atmosfera humana aqui instalada, ou pelo menos boa parte desse espírito (anti)comunitário, pesou sobre minhas costas. Já há algum tempo, portanto, que venho tentando me adaptar ao individualismo do ser humano brasiliense, não totalmente sem sucesso, pois a gente sempre encontra nosso espaço, e sai do outro lado, cantando.
Mas o que me levou a escrever esses parágrafos foi uma cena que hoje vi, no supermercado. A cena era composta de várias, mas várias almas obscuras, extremamente preocupadas com seus respectivos umbigos, absolutamente convencidas de sua absoluta isenção de culpa sobre os males que assolam nossa Terra (planeta). Carrinhos corriam a 100 Km por hora, numa desesperada manifestação de desespero, enfático, querendo significar que o ambiente, subentendidamente hostil, não estava à altura de seus seres superiores.
E assim vamos, carrinho pra lá (saiam da frente) carrinho pra cá e... mas o que era aquilo? Um carrinho de bebê! Ih! Outro! São agora 2 carrinhos de bebê, a 120 Km por hora, em pleno supermercado, espantando transeuntes desarmados (sem carrinhos)! Agora, o mais impressionante: havia bebês, de fato nos carrinhos! Naturalmente a paz e saúde daquelas crianças era, para os papais Airton Sennas, tão importantes quanto a paz e saúde dos demais convivas daquele recinto. Isto é, sem a menor importância.
Assim vamos nós vivendo, nessa selva de pedras, apreciando a obra de Niemeyer e a confortável cidade sem engarrafamentos e sem violência de Lúcio Costa.
Gostaria de fazer um apelo a nossos governantes que atentassem para a qualidade de vida em Brasília. Como dizia um amigo meu, qualidade de vida onde as árvores não reclamam. Pessoalmente, acho que os carros, os pardais e os pombos também não reclamam. Eu reclamo.

2 Comments:

Anonymous Anônimo said...

Brasília é, de fato uma cidade singular. Diz-se que os candangos possuem uma qualidade de vida melhor do que em outras cidades e não sou eu (na minha ignorância) que vou contestar o fato, pois se trata de estatísticas baseadas em critérios como saneamento básico, número de crianças na escola, e outros. Mas a questão é que aqui realmente as pessoas vivem oprimidas, mesmo sem que muitas dessas pessoas se atentem para este fato. Basta olhar para os serviços prestados na Capital da República. Em qualquer lugar que se adentre, desde o “buteco do seu Joaquim” até o “restaurante mais requintado” da cidade, encontram-se facilmente pessoas com semblantes fechados, sisudas, “presas” nos seus mundos particulares e prestando serviços medíocres. Aqui não se dá bom-dia, não se fala por favor, e a cordialidade trivial, que torna o peso do dia-a-dia mais fácil de ser suportado, simplesmente cede lugar à fisionomias carrancudas e emburradas, ou indivíduos que se acham declaradamente superiores pelo fato dos seus bens poderem ser quantificados, ou morarem em “partes nobres” da capital. Ah, nem estou falando da setorização que exclui implacavelmente a periferia, mas isto daria um outro capítulo...
Bem, claro que não são todos (graças à Deus!!) e sobram pessoas agradáveis, pessoas que ainda lembram que um simples “bom dia” ao motorista do ônibus ou ao caixa do supermercado, pode tornar a rotina dele e a sua também um pouco mais leve, mais alegre. Porque a vida, com todas as suas obrigações diárias, já é pesada por si só e não nos cabe contribuir para agravar esta realidade.
Tati.

8:59 PM  
Blogger Mário L. Freitas said...

Por um lado, JK teve uma visão fantástica da realidade de nosso país e construiu uma cidade fantástica no coração do nosso território. Não fosse esta visão, nossa população estaria tão concentrada no litoral sudeste hoje quanto a do Sri Lanka. A cidade é linda, modelo de qualidade de vida, verde, segurança e tranquilidade.
Por outro, a elite dominante, arrogante e delirante prova não ter a menor condição de viver em sociedade. Brasília não é uma ilha fisicamente, mas a população do Plano Piloto vive ilhada em sua fantasia e mantém contato com o resto do mundo apenas por obrigação, para ter os produtos e serviços que vêm de lá, necessários à sua sobrevivência luxuosa e fútil, no coração de um território miserável, mas sem perceber o que se passa do lado de fora de suas janelas.
O pior é que críticas e comentários como estes que ora fazemos não costumam surtir qualquer efeito, posto que estamos do lado de fora da janela e seremos sempre solenemente ignorados pelos que habitam a ilha da fantasia.
O máximo que podemos fazer, e já fazemos, é tratar estas pessoas com educação e cortesia, nem que seja para dar o exemplo, e receber patadas e ofensas em resposta.
Quer saber: Eu não admito que essas pessoas interfiram no meu modo de viver. Que vivam em seu mundinho particular e acertem as contas com suas consciências depois.
M. Lúcio.

6:06 PM  

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